Midiativismo

“Vivem em nós os que se foram” – Um Adeus a Amanda “Senzy Nsala, Kalon”

“Enterre-me suavemente neste útero
Eu dou esta parte de mim pra você
Tempestade de areia e aqui me sento
Segurando flores raras
No túmulo dela… Florescendo.”

Down in a hole – Alice in Chains

Existem pessoas maiores que esse mundo, pessoas tão grandes, tão profundas, tão vorazes que simplesmente o seu estar abala a estrutura da naturalização da dor, da tristeza, do sofrimento. Pessoas de alma tão sutil e bela, tão simples que arrombam, por si só, as portas para a liberdade. Mas há de se pagar o preço, há de se carregar a cruz dolorosa e silenciosa do sentir todo o ruim desse mundo e tomar para si, mesmo sem querer, mesmo sem entender o porquê. E assim, dia após dia, aquela bonita e bela flor vai murchando, e noite após noite a lança vai entrando vagarosamente sangrando e nós matando um pouco mais, sempre um pouco mais…

“Sociedade, espero que tenha piedade de mim
Espero que não fique brava se eu discordar;
Sociedade, você é uma criação louca
Espero que não esteja solitária sem mim.”

Society – Pearl Jam

Existem pessoas que não entendemos porque se vão, mas na verdade deveríamos tentar entender o porquê elas ficaram. Almas tão peculiares e singelas que carregam um ódio tão grande de tudo ao redor que lhes fazem mal, não porquê sejam pessoas ruins, mas por sentirem demais. Tristes são aqueles que morrem um pouco mais por sentir esse mundo mais do que deveriam…

“Cansado e triste
Eu sangro por você
Você acha isso engraçado, bem
Você está se afogando nisso também.”

No Excuses – Alice in Chains

E você acorda um dia e, de uma hora para outra, essas pessoas se foram deixando tanto para trás, deixando tantas vidas, tantos sorrisos, tantas coisas. Elas deixaram mais do que deveriam, entender o porquê as flores tem espinhos talvez seja melhor do que compreender porquê elas são tão bonitas. Nem toda dor é de fato tristeza assim como nem toda felicidade é estar feliz.

“E então eu os chamo novamente
E o motivo deveria deixá-la calma, eu sei
Eu disse: Eu não sei se sou o pugilista ou o saco de pancadas.”

Yellow Ledbetter – Pearl Jam

Amanda gostava de ser o mundo, de Kalon à Senzy, o mundo era ela quem fazia. Mulher preta e favelada de uma espiritualidade tamanha que era difícil, até para os mais descrentes, não sentir sua presença forte.

Mulher guerreira que tomava para si as lutas que ninguém mais queria, trilhando o caminho da revolta arduamente através da sua arte e do seu talento, através da educação na favela para as crianças, no amor e carinho imenso que tinha pelos bichos. Foi e é uma figura ímpar e emblemática de extrema importância em 2013, das assembleias populares de rua à espaços de luta autônoma, de luta preta, de luta especista e quiçá de muito antes disso, pois o personalismo nunca foi seu forte, apesar da sua presença efusiva e quase que não inotável, Amanda foi uma mulher sem igual.

Nessa ainda madrugada de primavera, 28 Setembro de 2017, Amanda se foi, seguiu finalmente seu caminho, concluiu seu ciclo nesse mundo, nos deixou para trás. Finalmente se libertou das amarras, tomou enfim o último suspiro na prisão e então ergueu-se em liberdade.

Com grande tristeza nos inclinamos hoje, com o coração em luto compartilhamos aqui o nosso respeito a essa grande mulher preta e favelada, e ainda com grande felicidade também nos erguemos firmes e fortes à continuar construindo os seus passos e a cada tijolo colocado lembrar felizes que era isso que talvez ela também estaria fazendo, pois uma coisa é certa, ela jamais em nenhum minuto da sua breve, porém, gigante vida, deixou de lutar pelo outro, e assim permaneceremos trilhando os seus passos, construindo a liberdade.

“Em uma tarde suave
Num quarto cheio de vazio
Abertamente, confesso
Eu estava perdido nas páginas
De um livro cheio de morte
Lendo como nós vamos morrer sozinhos
E se formos bons, nós deitaremos para descansar
Em qualquer lugar que quisermos ir.”

Like a Stone – AudioSlave

Amanda Presente

Amanda, Senzy Nsala “Kalon” foi membro fundadora da Rede de Informações Anarquistas.

Liberdade para Rafael Braga Vieira
R.I.A
“Que as chamas da insurreição iluminem o caminho para a liberdade”

“You look so tired and unhappy
Bring down the government
They don’t, they don’t speak for us”

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