Rio de Janeiro

Urgente – Dossiê especial sobre o conflito na Rocinha

Guerra na Rocinha: O que o Estado não vai contar.

Por Maranhão-8.

Para além de uma narrativa quase infantil, não fosse ela trágica, aonde mocinhos entram em guerra pela paz e traficantes malvados perturbam o sistema e a ordem, tentemos narrar o que se passa com o que sabemos, o que acreditamos e o que desejamos, da forma mais crua e sincera possível.

Primeiro, vamos analisar o que vem sendo dito nas redações e editoriais das principais mídias corporativas e meios televisivos tradicionais: O conflito na rocinha se dá por conta da briga interna de criminosos, traficantes (varejistas, faço a ressalva) que perturbaram a ordem brigando entre si, a população fica refém dos traficantes e a resposta lógica a isso é maior intervenção militar por parte do estado, para enxotar os traficantes na bala.

Moradores tentam manter a rotina de trabalho em meio a “Guerra de baixa intensidade”. Foto: Igor Alves de Albuquerque.

Assim a mídia tradicional performa um papel quase que criminoso ao corroborar uma narrativa que não só estabelece o cenário que vemos, como alimenta a perpetuação de um ciclo de violência o qual não se percebem verdadeiras intenções em terminar, por muitas das partes envolvidas (Seja estado, seja mídia).

A narrativa de que o último conflito na rocinha foi decorrente de uma eventual disputa entre traficantes, é criminosa. A omissão tanto política e noticiaria quanto aos motivos do que vem acontecendo e virá a acontecer, é criminosa.

Na mídia corporativa tradicional, faltam intenções e vontade para se falar sobre o famoso ‘helicoca’, sobre o envolvimento de políticos (dos mais variados níveis de influência) com o tráfico de drogas e redes de crime organizado.

Porém, não falta vontade e muito menos intenções para se falar dos ‘traficantes varejistas que colocam a favela como refém’. Não falta vontade também para as suspeitíssimas chamadas por maior presença militar e assim, mais guerra nas favelas. O papel dessa mídia corporativa nos protestos de 2013 foi criminoso, e a aceitação da narrativa da polícia sobre o caso Amarildo também foi criminoso. Não é de se espantar que tal omissão, criminosa enfatizo mais uma vez, se dê novamente agora no conflito de 2017.

A favela não produz drogas e armas, o Estado está apontando seu arsenal erradamente. Foto: Igor Alves de Albuquerque.

O ministro da defesa afirmou no dia de hoje(25/09) que a situação está estabilizada. Faltou-lhe a informação sobre a validade dessa estabilização. Uma hora, um dia, uma semana? A informação na verdade não lhe faltou à fala porque ela foi de fato omitida. A sério, o tempo de estabilização é irrelevante, uma vez que sabem que o que de fato importa é quando será necessária outra declaração de que a situação se estabilizou. Dadas as circunstâncias, a estabilização não tem longo, médio e nem curto prazo, e isso é de conhecimento geral, ao menos aos que trabalham na área da segurança.

Se é de conhecimento geral que a referida estabilização não logrará, e se a resposta do ministro foi insuficiente, pensemos então que respostas o ministro da defesa e de mais autoridades deveriam fornecer a cerca do quadro de conflitos na Rocinha. Uma pergunta interessante a ser respondida é porque a rocinha, sempre a mando de apenas uma facção varejista, passou a ser compartilhada por duas, após a implementação das UPPs? A divisão do poder (que ocorre durante o tempo da atuação da UPP) resulta em, como se mostrou no caso atual, em disputa, em conflito armado como vemos agora. Se os projetos públicos militarizados que buscam uma melhoria do nível de vida nas favelas tal qual as UPPs, não estão tendo sucesso em seus fins e, pelo contrário, estão multiplicando e intensificando problemas que se pretendiam solucionar, qual a validade da abordagem militar ao se tratar da favela?

A violência é parte do cotidiano das crianças. Foto: Igor Alves de Albuquerque.

Tais respostas jamais poderiam ser dadas ao público, não ao menos sem um subsequente pedido/ordem de demissão.

São muitas as perguntas que deveriam, adequadamente, serem feitas as autoridades. Contudo, todas não passam de perda de tempo. Pergunta-las aos gestores do poder não trará outro resultado que não o mesmo em que nos encontramos: Perdidos e alvejados frente a uma inundação de respostas vagas, omissas e mentirosas, das autoridades.

Já entendendo neoliberalismo como, efetivamente, terrorismo de estado, entro no próximo argumento (disponível em breve matéria sobre neoliberalismo como terrorismo de estado, caso a demanda e o respaldo dessa matéria sejam grandes). O conflito que se desenrola nas favelas cariocas, tão semelhante em intensidade quanto ao seus próprios contextos em relação aos de mais conflitos que se deflagram nas periferias dos países do sul, é apenas mais uma das dinâmicas de funcionamento do neoliberalismo (terrorismo de estado) para a manutenção da sua ordem político/econômica. O encarceramento político não se inicia em ilha grande, na ditadura militar, começa com o próprio encarceramento.

Terrorismo de Estado promovido pela farsa que é a “Guerra às Drogas”. Foto: Igor Alves de Albuquerque.

A guerra às drogas figura, aparentemente, como o cerne da resolução dos conflitos violentos em favelas. Ainda que a guerra às drogas seja, de fato, a rede discursiva que se responsabiliza por vender aos estados a coerção que é aplicada nas favelas, ainda assim essa guerra figurada permanece como um acessório, um instrumento discursivo que possui um objetivo maior que si. Em outras palavras, e ainda que soe estranho a primeira vista, mesmo que o sangue que escorra das vielas seja de fato uma responsabilidade da guerra as drogas em maior ou menor nível, essa guerra é apenas mais um dos muitos motivos históricos para dar continuidade a repressão/coerção social de grupo específicos. Com a permissão de uso de um vocabulário marxista, o arranjo de classes tal qual se configura no contexto carioca, sendo bem específico, pode ser entendido como a causa dos atuais conflitos. E sendo mais claro, para a manutenção do estado e da ordem social, pobre não pode ficar tão perto de rico, se não ele inveja, se não rouba, se não mata, se não revoluciona. Pro pobre ficar quieto, trabalhando e sem perturbar a ordem (responsável por esse funcionamento), tem que tomar muita porrada e ter bastante medo, pra ficar sempre na linha, pra saber que, se eventualmente conseguir fazer dinheiro, não é pra mexer em nada, deixar tudo como está!

Recomendo aqui a entrevista do então delegado chefe da polícia civil, Hélio Luz, aonde me inspiro nele para tal reflexão (Documentário: Notícias de Uma Guerra Particular, entrevista com Hélio Luz:https://www.youtube.com/watch?v=kBNIU3n4BDE). A guerra as drogas pode acabar, outra narrativa, outra rede discursiva que justifique repressão será criada. Podem acabar com as tantas guerras as drogas, a Rocinha continuará a ser palco de conflitos e outras declarações de estabilização virão.

Na definição clássica da ciência política, qualquer estado para se manter precisa do monopólio legal do uso da violência. No estado burguês capitalista (e arrisco, em qualquer outro estado que monopolize a força), a violência não só é exercida pelo seu monopólio legal(expresso por exemplo nas UPPs e seus policiais), como também é exercida através do terrorismo de estado por restrições econômicas, leia-se neoliberalismo, e das de mais formas de terrorismo de estado, aonde tal coerção incidirá em grupos étnicos/religiosos/sociais estratégicos.

Amarildo infelizmente se inseria em um desses grupos. Não só Amarildo, mas como a população das favelas também.

Nesse ponto as coisas devem estar mais claras. A violência contra grupos específicos (como por exemplo, os moradores de favela), é necessária para que o estado se articule tal qual ele é hoje: Para que os ‘helicocas’ passem enquanto os traficantes varejistas morrem largados nas vielas; para que o preto e o pobre continuem vivendo e trabalhando do jeito que estão, bem como as coisas continuem como estão para os ricos. São por esses motivos que a violência do estado acontece (sendo o conflito na rocinha nosso atual exemplo), é cíclica, e não há previsão para o seu fim, muito pelo contrário, o fim desses conflitos indica o fim da existência do próprio estado.

Não é a Síria é a Rocinha. Foto: Igor Alves de Albuquerque.

O fato é, para o estado, a favela não pode se desenvolver por uma questão de sobrevivência própria, pelo menos enquanto esse estado permanecer como o estado das elites (a despeito de seus lulas), bem como qualquer outro estado em qualquer momento histórico. O conflito na Rocinha não acabou agora com “estabilização” e também não vai acabar, como muito se sabe, se continuarmos a inércia de nossas respectivas vidas ignorando o problema até sermos atingidos.

É muito cômodo gerar medo quando não se deseja a revolta, é muito vantajoso perpetuar o terror e a violência para perpetuar o poder próprio. Não se meche em time que tá ganhando.

Gostaria de falar do bom da Rocinha ao invés de mais uma vez retratar a favela como palco dos acontecimentos violentos da cidade, de narrar o conflito, mas o tópico é esse e a urgência de sua resolução me impede. Para não deixar passar batido então que a rocinha tem muita cultura e o polo cultural que é a Rocinha, recebemos um tocante poema anônimo que relata a situação e um relato de um morador sobre o que acha da situação, suas perspectivas e frustrações com a atualidade e o futuro. Primeiramente o relato, e para finalizar, o poema com as últimas fotos [CHOCANTES] sobre o conflito na rocinha.

Relato de um morador:

“Após 23 de anos morando na comunidade, gostaria de abrir este relato com algumas observações, a primeira, não se pode tratar a Rocinha de forma generalizada, existem divisões complexas entre as áreas da mesma. Por exemplo na parte baixa, em áreas como a via a pia e o boiadeiro , existe toda uma infra estrutura de negócios que passa uma impressão de segurança e prosperidade. Já em partes como a roupa suja, rua 2 e valão, serão encontradas casas com menor infraestrutura, e comércios locais de pequenos porte, com vielas apertadas, nessas localidades a chance de avistar um traficante é bem maior. Não por menos o auge dos conflitos se deu na rua 2, pois existem muitos becos e locais para esconderijos, a grande preocupação fica por conta do grande número de casas, pois quanto menores as ruas mais casas elas recebem na rocinha. Partindo para uma lógica pessoal agora sobre os conflitos recentes.

Apesar de viver em uma área onde não foram registrados durante o primeiro conflito incidências diretas de tiros, na última sexta feira, com a iminente entrada das forças armadas, em conjunto com minha família decidimos sair de casa, por medo e por precaução, pois os traficantes conhecem terreno, sabem por onde e como se locomover. Sendo assim as chances de conflitos longe dos pontos de venda de droga é menor, já as forças convencionais detentoras do poder de polícia estão mais aptas a ficar nas regiões mais baixas e por isso tornam tudo no caminho potências alvos. Outro ponto que gostaria de destacar, muitas vezes já convivi com tiros, mas nada parecido com o domingo em que os conflitos iniciaram, o poder de fogo empregado, impressionou pela duração e pela intensidade, várias casas ficaram como peneiras, mas peneiras com furos muito grandes, provando o poderio empregado na situação. Agora um pequeno relato da experiência de amigos, apesar de conhecerem os riscos muitos ficaram em suas casa e optaram por levar sua vida perto da normalidade, porque? Para evitar pensar no quão impotentes nos tornamos quando estamos entre forças maiores que nós e que não podemos controlar, desde a instauração da UPP moradores se encontram entre uma parte com forte presença do Estado enquanto o tráfico se desenvolvia em silêncio em outras, acumulando o poder de fogo já citado a cima. Nesse período a Rocinha em muito prosperou, o número de bares, restaurantes, comércios em geral subiu muito, hostels foram criados. Projetos sociais cresceram, no fundo crescia junto a impressão de que uma hora isso acabaria, agora com a presença das forças armadas existe um novo medo. Será a Rocinha a nova Maré? Durante um ano ficaram presentes os soldados? Depois disso como fica tudo? Essas perguntas o tempo respondera, o que já foi respondido no entanto é mais importante, do jeito que o Estado lida com essas situações a chance de sucesso é muito pequena, enquanto a educação e as perspectivas de crescimento não alcançarem a todos, sempre vão existir pessoas dispostas a entrar para um dos lados dessa queda de braço invisível que armas jovens para se matarem. Para terminar queria deixar claro um ponto, o Rio e a Rocinha são muito maiores que toda essa situação, a alegria desse povo, enche de orgulho, ver jovens criando projetos sociais, promovendo inclusive a inclusão com pessoas de outros países nas favelas o povo toma para si a missão que o Estado falha, cada bar aberto durante uma ocupação é um ato de resistência, cada aula de esporte é uma ato de resistência, cada sorriso depois de um tiroteio é um ato de resistência que tem um poder de mudança maior que qualquer tropa armada”

Fotos: Igor Alves de Albuquerque.
Colaborou: Carlos Augusto Lima França.

Letra Anônima:

Mesmo que não seja um sonho, autor anônimo RJ 22/09/2017.

Quando fecha a estrada a bala é sul e partidária
Aí são cinco de cem com exposição noticária
Sai comando entra farda, a violência é diária
Se a arma não resolve, a guerra é programática
Não sendo um sonho por favor, me permita sonhar
É caótico perturbador, mas preciso observar
Quantos mais me abnego da dor, mais sinto o chorar
Por mais distópico pareça senhor, o olho tem de olhar
Se relevo o ‘ça’ da ‘for’, sei que o temor em morte virá
A guerra mandrake persiste, para o ciclo prosperar
Entre Colombia e as FARC, em quem acreditar?
Nesse ciclo o que ja sei, é que record e globo vão lucrar
Que merda fazer então pro ciclo terminar?
O que precisa pras coisas andar?
Esquecer a realidade alivia e faz matar
Observar machuca, mas se precisa suportar
Suportar até entender, aí desvio o olhar
Quando entender, pode me acordar

Imagens icônicas que demonstram o horror da “Guerra às drogas”:

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