Entrevistas

“Ei, fotógrafo, marquei sua cara’ ouviu Thiago Ripper em uma unidade sócioeducativa

“Ei, fotógrafo, marquei sua cara’, disse a Thiago Ripper um adolescente em conflito com a lei – nome pomposo dado aos infratores menores de idade. Era a primeira vez que Ripper trabalhava naquele ambiente e ficou sem saber o que fazer.

“Aí eu disse então aperta minha mão também, cara”. Daqui a pouco ele já estava pedindo para tirar fotos dele, fazendo pose e tudo”, conta.

Após essa experiência, o carioca de 34 anos acabou se tornando professor de fotografia nesses centros e viveu lá várias experiências que em muito se assemelham às vividas por nós, do Projeto Voz, durante os trabalhos como A Estrela e Mães do Cárcere. Não é para menos: os locais não passam, nas palavras do fotógrafo, de “mini-cadeias”.

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Em duas aulas semanais durante três meses, os cursos eram oferecidos pela inicialmente pela ONG Ação Comunitária e, em seguida, pelo Instituto Terra Nova. Começou como Pan Social, durante os Jogos Pan Americanos, em 2007, e depois foi rebatizado de Significando Vidas e se tornou Novo Horizonte, quando deu origem aum livro. Ripper nos contou algumas das dificuldades, das vitórias, das frustrações e dos desafios que vivenciou durante a experiência.

Voz: Como as aulas de fotografia são recebidas pelos adolescentes nos Centros Socioeducativos?
Thiago Ripper: Depende de cada aluno, mas uma coisa se repete. No Socioeducativo, não existem espelhos, então a fotografia chega e cumpre um papel de reflexo pra eles, atinge a questão da autoimagem. “Olha, eu engordei, eu emagreci”. Nas unidades femininas, isso é ainda mais forte, as meninas fazem pose, se arrumam. Tem também a questão do talento, da autoestima, de reconhecer que eles podem fazer outra coisa.

V: O que mais atrai o olhar deles?
T: Alguns vão mais para esse lado da autoestima, de se fotografar, mas tem sempre os que seguem uma linha mais artística e alguns que querem fazer denúncia. Pra mim, como professor, o ideal é ter um pouco disso tudo.

V: E eles têm liberdade para fazer essas fotos lá dentro?
T: Sempre tem alguém supervisionando. O Socioeducativo, principalmente nas unidades masculinas, funciona com todas as regras, ou quase todas, da cadeia. É uma mini-cadeia mesmo. Os agentes com coturnos, aquelas caras de policiais, essas coisas. Nunca consegui, por exemplo, ir com eles até os alojamentos, as câmeras não são permitidas lá. Eu queria deixar a câmera com eles, pra que fotografassem as visitas nos fins de semana ou algum evento, qualquer acontecimento quando eu não estou lá. Mas não pode, só fotografam durante as aulas.

V: Essa supervisão significa uma censura muito forte pra eles?
T: Eles têm seus próprios códigos nesse sentido. Não apontam câmeras, por exemplo, pras mulheres que trabalham lá dentro, na limpeza, essas coisas. Eles sabem que elas são pobres, oriundas de comunidades e podem ser a mãe ou a irmã de alguém ali dentro. Então, respeitam. Mas se entra uma mulher patricinha, que eles acham que têm dinheiro, aí fotografam. Os agentes, eles fazem questão de fotografar até como uma forma de se rebelar. Mas foram poucas confusões por causa disso. Uma vez um deles fotografou os meninos sendo algemados e colocados em um camburão. O agente foi lá falar comigo, ameaçou o menino, pediu pra apagar a foto, que nem estava boa, foi feita com pressa, estourou um pouco.

V: O espaço também é limitado, né? Como isso se reflete nas fotos?
T: Sim, a circulação é limitada, o espaço é sempre o mesmo e existem outros obstáculos. Por causa do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) não podemos, por exemplo, permitir que eles fotografem os rostos uns dos outros. Então temos que trabalhar a criatividade deles e a gente sempre se surpreende. A câmera com a qual eu trabalhava tinha uma macro muito boa e uma surpresa pra mim foi quando começaram a usar isso e aparecer com fotos de insetos, folhas… A câmera também tinha um bom zoom e eles captavam algumas coisas do lado de fora da unidade.

V: Como é a sua relação com os alunos?
T: Se você entra lá para dar aula, eles te respeitam. Mas se entra com câmera para fotografar, acham que você é repórter, que trabalha pra um deputado que fala mal deles, que trabalha pra Globo, e aí não gostam. Acham que a imprensa está contra eles. Mas depois que você explica seu trabalho, eles gostam. Nem precisa de tanto papo, é coisa rápida.

V: Como foram as primeiras vezes em que entrou para trabalhar em um Centro Socioeducativo?
T: Fui de peito aberto pra fotografar uma celebração religiosa, uma missa perto do natal. Primeiro, um cara me chamou de Tim Lopes. Depois, fiz a foto de um garoto, sem mostrar o rosto dele, com aqueles papéis de missa nas mãos. Ele falou “ei, fotógrafo, marquei sua cara”. Fiquei sem saber o que fazer e falei “então aperta a minha mão também, cara”. Daqui a pouco ele já estava pedindo para tirar fotos dele, fazendo pose e tudo. A partir daí foi super tranquilo, fui quebrando as resistências. Tenho muito contato com o rap aqui no Rio e isso ajudou. O cara cantava um rap pra mim e eu já respondia no mesmo tom. Foi uma das ferramentas que usei pra me aproximar deles.

V: O que a diretoria acha dessa sua proximidade com os alunos?
T: Não posso ficar sozinho com eles, dizem que pra garantir a minha segurança. Eu acho que garanto minha segurança de outro jeito, na conversa, que não preciso de ninguém andando ao meu lado, mas eles não abrem mão. Falam também que é pra evitar que alguém fuja durante a minha aula. E aí, tudo depende muito de quem está no plantão do dia, alguns são mais tranquilos, outros não. Eu só queria que mais agentes fossem como o Alex Marcos, um cara tranquilo que hoje até dá aula de fotografia lá também.

V: Você acha que as aulas de fotografia podem mudar a vida deles depois que saírem do Centro Socioeducativo?
T: É tudo muito complicado. Uma ex-aluna que já saiu de lá ganhou outro dia uma bolsa para uma escola de fotografia, mas ela não tinha nem o dinheiro da passagem para chegar até a escola. Não há nenhuma política para ajudá-los depois que saem do Socioeducativo, é como a libertação dos escravos. Ok, agora vocês estão livres. E aí? Vão fazer o que a partir de agora? Na primeira turma, conseguimos quatro câmeras para dar de presente para os quatro melhores alunos, dois meninos e duas meninas. Eles saíram, fotografaram um pouco, mas a vida voltou a bater neles. Uma das meninas teve um filho com um dos agentes e era um cara complicado, que acabou quebrando a câmera dela. Hoje ela trabalha em uma padaria e faz tatuagens também. Mas tem uma que ainda fotografa, eu até brinco que ela roubou um trabalho meu, porque tira fotos na ONG Ação Comunitária. Me trocaram por ela e eu acho ótimo! Tem outros que não fotografam profissionalmente, mas que eu vejo no Facebook que eles agora têm uma sensibilidade maior, postam umas fotos bonitas, bem-feitas.

V: Você identifica muitos talentos lá dentro?
T: Vários. E o pior é que muitos não querem usar esse talento. Chegam e já dizem “professor, eu só quero o diploma para mostrar pro juiz e sair daqui. Depois, vou voltar pro tráfico”. Eu digo, “Ok, mas então vai ter que fazer a aula direito”.

V: Isso é muito frustrante?
T: A gente chega lá e acha que vai levar todo mundo, que todos vão virar fotógrafos e nós vamos criar uma nova imprensa através dos garotos. Mas não. É frustrante nas primeiras vezes, depois a gente aprende. Turmas de seis, oito pessoas, dois acabam sempre nos falando isso. Outros dizem que não sabem o que será deles quando saírem, que precisariam de muita grana pra comprar uma câmera, essas coisas. A gente queria salvar o mundo, mas como não dá, a gente tenta salvar um. Os casos que deram certo acabam ganhando da frustração.

V: O resultado dessas aulas, as fotos em si, qual é o impacto delas do lado de fora?
T: A fotografia quebra paradigmas, desafia o Status Quo, mostra outros lados de espaços que, de alguma forma, são negligenciados tanto pelo poder público quanto pela sociedade. As fotos já foram expostas em locais nobres, galerias chiques da zona sul do Rio de Janeiro, e as pessoas gostavam. Imagens bonitas, a curadoria foi bem feita. E era quase um tapa na cara. Aí, pode olhar, são analfabetos, estão presos, mas fazem melhor do que você. Se eu colocar uma câmera na sua mão, você não faz isso.

Confira algumas das fotos feitas pelos adolescentes que foram alunos de Thiago Ripper.

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