Política

Sobre os “Kim Kataguiris” e a agenda “liberal” para vender o Brasil

O “liberal” brasileiro é aquele que defende o “livre mercado” para as grandes corporações, mas adora ver um camelô sendo roubado pela guarda municipal. Eu nunca ví na vida um desses neo gurus da direita defender “livre mercado” para camelô, muito menos questionar o fato do governo  bancar a grande mídia no Brasil. Já divulguei em vários posts aqui do Mídia Coletiva, aquilo que precisa ser lembrado a todo momento, que a Rede Globo nos 12 anos de governo petista embolsou  R$ 6, 2 Bilhões em publicidade. Se embolsou isso no governo do PT, imagine antes. É um valor tão absurdo que as pessoas abstraem, não conseguem codificar no cérebro o que isso significa. Eu costumo usar como exemplo as Casas Bahia. Esse é o mesmo valor que  Samuel Klein, depois de trabalhar mais de 50 anos e abrir quase 550 lojas por todo o Brasil conseguiu acumular de capital com as operações das Casas Bahia. E foi também o mesmo valor do lucro do BNDES em 2015.  Você pode aqui ver o que é possível fazer com R$ 6 bilhões e aqui a notícia deste gasto do governo com a Globo.  Ou seja, a grande mídia no Brasil é bancada pelo Estado e eu nunca ví e você também nunca verá uns desses neocons “liberais” questionar isso.

Não tenho dúvida, que se existe algo que uma empresa como a Globo realmente precisa é de livre mercado, ou seja: vá se virar sem mamar nas tetas do governo.  Só este exemplo que é a regra do capitalismo de compadres do Brasil já desmonta todo o discurso barato de Kim Kataguiri e sua tropa, que adora repetir frases decoradas de Milton Friedman, mas que faz vistas grossas para essa realidade. Por que isso ocorre? Porque a agenda dos Kataguiris da Paulista e sua turma não é desenvolver livre mercado e  empreendedorismo para  levá-lo aos que realmente precisam de livre mercado como os camelôs e outros pequenos e médios empreendedores que são esmagados pelas grandes empresas e pelo estado. A agenda por trás do MBL é o Livre Mercado exclusivo para os bilionários americanos comprarem com ajuda da Globo o que restou da indústria brasileira. É o livre mercado para privatizar os recursos naturais do país.  Esse é o livre mercado do MBL e de todos estes novos representantes da velha direita brasileira.

Segue o compilado de dois textos do economista André Levy, que mostra como é que a turma da Av Paulista pretende leiloar o que restou do país.

Quem é Kim Kataguiri?

Não vamos falar do Kim Kataguiri como pessoa; não estamos aqui para falar dos outros. Vamos falar do Kim como fenômeno. Um rapaz de 19 anos alçado ao posto de ícone de um movimento e de agente de mudança de toda uma nação é no mínimo notável.

Com 19 anos, ele não tem uma história de vida que lhe amealhou a bagagem que precisa uma pessoa para, sozinha, liderar e inspirar milhares, senão milhões, de pessoas. O seu talento para oratória é inegável, mas é preciso mais do que isso para liderar pessoas. É preciso conhecer o ser humano suficientemente para saber o que o move, o que o inspira. Mesmo os mais iluminados da história humana – de Jesus a Buddha a Gandhi – tinham pelo menos 30 anos quando se tornaram líderes.

Kim é uma fabricação. Não o menino de 19 anos que foi atropelado na estrada, de carne e osso, claro. O fabricado é o Kim que vemos na tela. Preparado, articulado, bem treinado com um discurso que se baseia em livros que ele não leu. Mas por quem?

“Em 15 de março, a coalisão chamada Movimento Brasil Livre conduziu um protesto com mais de 200.000 pessoas, o maior que São Paulo já viu desde as manifestações pró-democracia nos anos 80. O líder do movimento é Kim Katiguiri, uma estrela nascente do libertarianismo no Estudantes pela Liberdade, um aliado da Atlas Network.” (Atlas Network)

O que é essa Atlas Network?

“Por mais de duas décadas, esta organização [a Atlas Network] baseada em Virginia [nos EUA] tem trabalhado silenciosamente como o Johnny Appleseed dos grupos de anti-regulação. Com um orçamento modesto de US$4 milhões em 2003 e uma equipe de 8 pessoas, a Atlas Economic Research Foundation [renomeada Atlas Network] tem como missão semear o mundo com novas vozes do “livre mercado” [no sentido de laissez faire]. No seu relatório de 2003, curiosamente intitulado “Relatório do Investidor”, a Atlas anunciou que trabalhou com “70 novos empreendedores de think tanks em 37 países estrangeiros e vários estados dos EUA”, incluindo Lituânia, Grécia, Mongólia, Gana, Filipinas, Brasil e Argentina. A missão da Atlas, de acordo com John Blundell (presidente de 1987 a 1990), “é emporcalhar o mundo com think tanks de livre mercado”. (SourceWatch)

E esse Estudantes pela Liberdade, o que é?

“Durante o recente Seminário de Verão no Brasil da Atlas, organizado pela Ordem Livre e patrocinado pela Smith Family Foundation, um grupo de estudantes decidiu começar um projeto ambicioso: criar um Students for Liberty brasileiro (Estudantes pela Liberdade – EPL). Esta organização conectaria e proveria apoio a jovens libertários por todo o país através de grupos de estudantes, congressos regionais e nacionais, e mídia social. Como primeiro passo, o EPL começou a reconstruir um protótipo de organização de estudantes iniciado em 2010. Desde o Seminário de Verão, os estudantes se encontraram e trocaram ideias através de fóruns e encontros. O EPL será lançado com mais de 50 líderes em universidades por todo o país e lançarão uma publicação acadêmica. Os fundadores esperam que até dezembro de 2012, o Estudantes pela Liberdade terão líderes em todas as universidades públicas e nas principais universidades privadas. Vários líderes estudantis participarão do programa de treinamento mundial do Students for Liberty.” (Atlas Network)

E assim começou…

Jeffrey Tucker: “Nos conte como está o EPL no Brasil.”
Juliano Torres: “Começamos 2 anos atrás, logo após um evento da Atlas…”

Quem é Jeffrey Tucker??

Jeffrey Tucker é uma das principais referências do movimento libertário em todo mundo. Presidente da Laissez Faire Books, consultor editorial do Mises Institute e CEO da Liberty.me, Tucker é autor de obras como “Bourbon for Breakfast: Living Outside the Statist Quo” e “A Beautiful Anarchy: How to Create Your Own Civilization in the Digital Age“, e seus artigos estão presentes traduzidos nos mais diversos idiomas ao redor do globo.” (Liberzone)

Instituto Mises?…

“Talentosos jovens empresários e empreendedores, como Hélio Beltrão no Brasil, continuam a desempenhar papéis fundamentais nos Institutos Mises espalhados pelo mundo.” (Forbes)

Hélio Beltrão que foi ministro do Planejamento de Costa e Silva e da Junta Militar de 1969, da Previdência Social, e da Desburocratização de Figueiredo, ex-presidente da Petrobrás, e grande acionista do Grupo Ultra?

Não, o filho:

“Graduado em finanças com MBA pela Universidade de Columbia, em Nova Iorque. Foi executivo do Banco Garantia [fundado e presidido por Jorge Paulo Lemann até vendê-lo ao Credit Suisse em 1998], Mídia Investimentos e da Sextante Investimentos. É fundador e membro do conselho consultivo do Instituto Millenium (aquele que os donos da globo fazem parte) fundador-presidente do Instituto Mises Brasil. Também é membro do conselho de administração do Grupo Ultra, da Le Lis Blanc, da Artesia Investimentos, do conselho consultivo da Ediouro Publicações e da Lab SSJ.” (Instituto Millenium)

Mas o pai ter participado do regime militar não tem a ver com o filho, tem? Não necessariamente. Mas o Grupo do qual ele é conselheiro ter participado tem:

“Os caminhões da Ultragás eram usados nas emboscadas preparadas pela Oban, e em troca, a empresa operava com um “capital de giro negativo”, como relata o filho de Boilesen no documentário “Cidadão Boilesen”, dirigido por Chaim Litewski, recebendo gás da Petrobrás para pagar no mês seguinte. O empenho de Boilesen em manter o avanço do capitalismo no Brasil e sua proximidade aos militares rendeu-lhe um assassinato violento por membros da Aliança Nacional Libertadora (ANL) e do Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), que o mataram a tiros em São Paulo, em 1971.” (iG, 29.03.2014)

O Grupo Ultra é hoje a 4a maior empresa do país, e uma das únicas 7 brasileiras entre as 500 maiores empresas do mundo. Em 2013 ela faturou R$61 bilhões.

E qual seria o objetivo dele com o Instituto Mises Brasil? Ele explica:

“Daqui a uns dez anos, a sociedade estará pronta para nossas ideias. Até 2030, teremos eleito pelo menos 1 Presidente da República, conquistado 15 a 20% do Congresso, e eleito 3 governadores entre os 10 maiores estados do Brasil.”

Mas de quem é esse Mises Institute?

Lew Rockwell é um autor e editor libertariano estadunidense, auto-intitulado anarcocapitalista, promotor da Escola Austríaca de Economia, e fundador e presidente doLudwig von Mises Institute (Wikipédia). Por uma cruel ironia do destino, foi ele mesmo quem defendeu – de próprio punho! – o direito de motoristas a dirigirem nas condições que levaram à hospitalização do Kim Kataguiri.

Mas o Helio Beltrão também está ligado à Atlas?

Está:

“A Atlas Network trabalha com mais de 475 organizações pelo livre mercado [laissez faire] em mais de 90 países. Estudantes pela Liberdade é só mais um dos aliados trabalhando para eliminar o que está barrando a liberdade. O Instituto de Estudos Empresariais organizará o 28o Fórum da Liberdade de 13 a 14 de abril em Porto Alegre. O presidente da Atlas Network, Dr. Alex Chaufen, será um dos palestrantes convidados. O Instituto Liberal semeou a liberdade nos anos 80, quando começou a traduzir textos clássicos do liberalismo para o português. O Instituto Millenium tem influenciado ativamente o clima intelectual, promovendo a liberdade através de aulas, palestras e encontros por todo o Brasil. Eles também produzem um podcast que discute os problemas brasileiros. O Instituto Ordem Livre oferece cursos de verão e inverno para estudantes buscando aprender e promover a liberdade. OInstituto Ludwig von Mises Brasil também tem sido um recurso indispensável, oferecendo profundas e prescientes análises da política e economia brasileira.” (Atlas Network)

Quanta coisa! Quem criou tudo isso??

“O Instituto Millenium, de cunho mais liberal, existe desde 2005 e tem entre os fundadores ou mantenedores, além de Helio Beltrão, Gustavo Franco, Paulo Guedes, Daniel Feffer, Fábio Barbosa e João Roberto MarinhoRodrigo Constantino, ex-colunista da revista “Veja” e nêmesis da esquerda, é o presidente do Instituto Liberal, no Rio. O diretor-executivo, Bernardo Santoro, é o guru econômico do pastor Everaldo, único candidato à Presidência a falar abertamente de privatizações. O IFL (Instituto de Formação de Líderes) – que começou em Belo Horizonte e é patrocinado por Salim Mattar, dono da maior empresa de aluguel de veículos do país, a Localiza, e David Feffer, do Grupo Suzano – tem como meta “conscientizar jovens empreendedores sobre a importância do livre mercado [laissez faire], da propriedade privada e da redução do tamanho do Estado”. O Instituto de Estudos Empresariais, no Rio Grande do Sul, foi fundado pelo empresário William Ling, tem a bênção de Jorge Gerdau, do gigante da siderurgia, e costuma reunir até 6.000 pessoas em seus eventos. Já os Estudantes pela Liberdade formam grupos de estudos em torno da obra de economistas conservadores como Hayek, Mises e Milton Friedman. O slogan de boa parte desses jovens é “menos Marx, mais Mises”. O grupo ­é uma franquia do americano Students for Liberty, ligado ao Cato Institute, que é financiado pelos irmãos Koch, grandes patrocinadores de causas conservadoras nos EUA.” (Folha de São Paulo, 5.10.2014)

Pastor Everaldo?? Sim, lembra?

Como é que o pastor Everaldo entra nessa história toda??

“Guardadas as proporções, há vários pontos em comum entre o proselitismo ultraconservador no Brasil e nos Estados Unidos – onde a partir dos anos 70, tempo de recessão e crise política que resultou na renúncia de Richard Nixon, uma série de think tanks passou a desafiar o consenso social da Era Roosevelt, iniciada com o New Deal.

Como também vem se esboçando no Brasil, a direita americana ocupa, grosso modo, duas vertentes que se entrecruzam: uma, ligada às igrejas neopentecostais, dá ênfase aos “valores morais”; outra, liberal, prega cortes nos impostos e na previdência social. Os libertários, uma subcorrente desta última, se distinguem por rejeitar qualquer ingerência na vida do indivíduo, defendendo por isso a legalização das drogas. Os propagandistas dessa direita ressurgente tacharam Barack Obama de socialista e muçulmano. Seu subproduto mais recente é o Tea Party, movimento que se tornou influente no Partido Republicano e acaba de lançar seu primeiro pré-candidato à Presidência, o senador pelo Texas Ted Cruz.” (Revista Piauí, Ed 103, abril 2015)

E isso tem a ver com os irmãos Koch? Quem são?

Os irmãos Koch são filhos de Fred C. Koch, que fundou as Koch Industries, a segunda maior empresa de capital fechado nos EUA, da qual detém 84% [juntos, têm US$100 bilhões, mais que o Bill Gates]. Depois de comprarem as ações dos outros dois irmãos, eles controlam as empresas familiares, a fortuna que herdaram do pai, e as fundações da Família Koch.

Os irmãos são grandes contribuidores das campanhas de think tanks conservadores e libertarianos. Eles financiam e apoiam ativamente organizações que contribuem substancialmente para os candidatos Republicanos, e fazem lobby contra a saúde pública e leis de proteção ao meio ambiente. Eles doaram mais de US$100 milhões a dezenas de organizações promotoras do livre mercado [laissez faire]. Em 2008, as três principais fundações da família Koch contribuíram com 34 partidos políticos e ONGs, três das quais eles fundaram, e várias das quais eles presidem. (Wikipédia)

Libertarianismo enlatado

Ronald Reagan foi eleito presidente em 1980, iniciando nos EUA e no mundo, junto com Margareth Thatcher na GB, uma era de grande avanço do conservadorismo. Houve um grande recuo do Estado no amparo social. Foi então que se cunhou o termo Reagonomics, também conhecido como trickle down economics. É a idéia de que reduzir os impostos dos mais ricos, com o corte dos programas assistenciais, é bom para todos, pois eles vão investir mais e gerar mais empregos. É uma ideia atraente, porém o resultado foi a mais rápida concentração de riqueza da história humana até então.

Concomitantemente, Reagan ampliou exponencialmente o Estado policial. De um lado, retomou a Guerra “Fria”, relegada por Carter, que só acabou com a queda do muro de Berlin em novembro de 1989 (ou melhor, teve uma pausa). Do outro, intensificou a Guerra às Drogas, iniciada por Nixon, que junto com a privatização do sistema carcerário, criou a maior população carcerária do mundo – hoje em 2.217.000 – e a 2a maior taxa de encarceramento (depois das Ilhas Seychelles, com 7 de cada 1.000 residentes presos).

No mesmo ano em que Reagan foi eleito, havia uma outra candidatura ainda mais ousada no desmantelamento das instituições de amparo social: a do Partido Libertário. O candidato à vice-presidência por esse partido era então o jovem David Koch, com 40 anos, um dos patrocinadores do partido. Hoje, 35 anos mais tarde, David se tornou, empatado com seu irmão Charles, a 6a pessoa mais rica do mundo, com US$42,9 bilhões. Juntos, os irmãos compõem a 2a mais rica família do planeta, com US$85,8 bilhões, depois da família Walton, dona do WalMart.

A plataforma de David Koch em 1980 deverá soar muito familiar a muitos dos leitores:

  1. Fim da saúde pública
  2. Fim da educação pública e do Estado de Bem Estar
  3. Fim da seguridade social e das políticas assistenciais
  4. Fim do salário mínimo e das leis trabalhistas
  5. Fim de todos os impostos e total anistia à sonegação
  6. Fim de todas as leis de proteção ao consumidor e ao meio ambiente
  7. Desregulação total do setores de energia, transportes aéreo e terrestre, farmacêutico e alimentício
  8. Desregulação total do setor de seguros
  9. Privatização da água, das ferrovias, rodovias e hidrovias
  10. Fim de todas as restrições ao financiamento campanhas políticas e à propaganda eleitoral

 

Ela deve soar ainda mais familiar àqueles que se declaram “liberais” hoje no Brasil. Essa nomenclatura está redondamente equivocada, pois o que os liberais clássicos – John Locke (1632-1704), Adam Smith (1723-1790), Montesquieu (1689-1775), entre outros – defendiam em nada se parece com esta agenda. Adam Smith, por exemplo, era contra a privatização, ou até mesmo a concessão, de estradas (“Riqueza das Nações”, Vol. I, Cap III, Parte I, p. 786, 1776). E foi Montesquieu quem disse que “o livre mercado não é uma permissão para os mercadores fazerem o que quiserem” e que “o que restringe os mercadores não necessariamente restringe o mercado” (“O Espírito das Leis”, Vol. XX, 1748). As grandes referências destes “liberais” brasileiros – na verdade libertarianos (do francês libertarienne) – são Frèdèric Bastiat (1801-1850), Ayn Rand (1905-1982), Murray Rothbard (1926-1995), Robert Nozick (1938-2002) e o agora tão citado Ludwig von Mises (1881-1973).

O uso do termo “liberal” tem aí o objetivo de se aproveitar do renome destes autores do século XVII e XVIII, associando-os, em moto contínuo, a autores que os precederam em pelo menos 150 anos, e descenderam de uma escola de pensamento completamente distinta..

Libertarianismo tropicalizado

A agenda libertariana, defendida por Koch em 1980, vem sendo propalada amplamente no Brasil, através das redes sociais, por uma nova geração de universitários das melhores universidades do país. A agenda encontrou solo fértil, arado e adubado por institutos ditos liberais que datam desde a década de 80 (Celeti, 2014). O mais antigo é o Instituto Liberal, fundado por Donald Stewart Jr. em 1983, 3 anos após a eleição de Reagan, e presidido hoje por Rodrigo Constantino. Donald era dono da construtora Ecisa, uma das maiores empreiteiras durante a ditadura militar (Campos, 2012), associada à construtora norte-americana Leo A. Daly na construção de escolas no Nordeste para a Sudene. A associação era uma exigência do seu credor, a USAid, agência de desenvolvimento americana, que funcionava como braço econômico da CIA durante as ditaduras latino-americanas (Perkins, 2004). Donald era sócio e afiliado a diversas instituições internacionais, são elas: Sociedade Mont Pèlerin, CATO Institute, Heritage Foundation, Atlas Foundation, Fraser Institute, Liberty Fund e Institute of Economic Affairs. Estes são todos think tanks libertarianos, que produzem conteúdo e propostas de políticas públicas, para promover os interesses dos seus afiliados. O CATO Institute, por exemplo, foi fundado por Charles Koch, irmão de David Koch.

No ano seguinte, em 1984, William Ling funda o Instituto de Estudos Empresariais (IEE), que desde 1988 organiza o anual Fórum da Liberdade. William Ling, junto com seu irmão Winston, é dono da antiga Petropar, renomeada Évora em 2013. Winston, que também é fundador do Instituto Liberdade do Rio Grande do Sul, é pai de Anthony Ling, um dos fundadores do Estudantes pela Liberdade (EPL), onde germinou o Movimento Brasil Livre (MBL) de Kim Kataguiri.

 

Estas organizações foram então o fundação sobre a qual começou a germinar por volta de 2004 as organizações libertarianas na web. 2005 foi o ano em que Rodrigo Constantino começou a despontar, ainda no antigo Orkut, como um thought leader do movimento libertariano no Brasil. Em 2007, Erick Vasconcelos cria o seu blogLibertyzine, e Atlas Economic Research Foundation em cooperação com o Cato Institute cria o Instituto Ordem Livre (Celeti, 2014). Em 2008, Hélio Beltrão Jr., entre outros, funda o Instituto Mises Brasil (IMB), que ele hoje o preside e patrocina. Hélio é sócio-herdeiro do Grupo Ultra, dono dos postos Ipiranga e da Ultragaz, que cresceu astronomicamente durante o regime militar, e que é hoje a 4a maior empresa do país, e uma das únicas 7 brasileiras entre as 500 maiores empresas do mundo. No mesmo ano, Juliano Torres funda o Portal Libertarianismo, e mais tarde, em 2012, durante um seminário da Atlas no Brasil, ele encabeça a criação do EPL. O EPL é inspirado no Students for Liberty, organização do Cato Institute para disseminar a sua agenda entre estudantes universitários por todo o mundo. No Brasil, o EPL funciona como uma organização guarda-chuva para uma série de menores grupos organizados ao redor de publicações próprias, como Liberzone, Spotniks e Mercado Popular, além do IMB e do Portal Libertarianismo.

Think Tanking no século XXI

Estes sites e blogs são impecavelmente diagramados e os artigos são muito competentemente fundamentados e bem escritos. Alguns são traduções outros são originais. Tipicamente, os originais aplicam os argumentos libertarianos à realidade brasileira. Os artigos têm uma estrutura similar: focam num problema social ou econômico, apontam as falhas das atuais políticas e apresentam a solução. É um formato padrão e profissional. É o que se chama no mundo das políticas públicas de white paper. São artigos com um verniz de objetividade acadêmica, mas que porém são esculpidos para promover uma determinada agenda. Para isso, faz um longo percurso, rico de dados, estatísticas e bibliografia estonteante para o leitor mediano. Esse miolo é geralmente muito consistente e tipicamente absorve-se muito lendo-o. De fato, absorve-se tanto que quando se chega ao fim dele, o leitor já está convencido da integridade do texto, ou até mesmo estonteado com tanta informação, que tipicamente acaba aceitando a conclusão sem questionar o salto quântico entre o meio e o fim do texto. Toma um pouco de prática, mas após ler alguns, aprende-se a enxergar o software por trás da estrutura do texto. Os artigos libertarianos, em particular, começam descrevendo os problemas com as políticas públicas atuais, e buscam levar pela mão o leitor até a conclusão, não de que as políticas precisam ser reformadas, e sim completamente extintas.

Os artigos costumam ser muito profissionais e escritos por estudantes realmente talentosos. Costuma-se questionar quem os financia, mas a verdade é que o custo de se publicar blogs na internet é mínimo, e os estudantes não têm muitas obrigações financeiras a cumprir. Tipicamente não têm dependentes, estudam em universidades públicas e moram com os pais. Ainda assim, a Atlas costuma fazer pequenos investimentos, tipicamente de US$5.000, em organizações como o EPL, seguindo um modelo de venture capital,selecionando, treinando, financiando intellectual entrepreneurs (World Heritage Encyclopedia). Em 2013 a Atlas recebeu US$ 11,459 milhões em doações (Form 990), dos quais, segundo o presidente da Atlas Alejandro Chafuen, US$57.295 foram doados pelos irmãos Koch (Amaral, 2015). Este é evidentemente um modelo muito mais barato e efetivo do que os think tankstradicionais, quem empregam PhDs em seus escritórios nas grandes capitais. Vejamos então o que têm produzido esses think tanks mirins no Brasil (confira com o plano de governo apresentado por David Koch em 1980).

 
André Levy é doutorando em Finanças pela Universidade de New South Wales, em Sydney na Austrália. Se formou bacharel em Matemática pela USP, fez mestrado sobre Engenharia Econômica em Stanford, e tem mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, incluindo bancos, consultorias e governo, no Brasil e na Austrália.

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1 Comment

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  1. Paulo Eduardo Rodrigues Leite

    3 maio, 2016 at 0:54

    Comecei recentemente a seguir o canal Libertarismo no facebook e realmente faz sentido o que foi dito na matéria.
    Os pensadores libertários por trás deste portal não se consideram nem de direita e nem de esquerda (apesar da maioria dos comentários serem de pessoas reacionárias de direita), porém a resposta padrão do libertarismo para todos os problemas do mundo os aproxima de qualquer corrente extremista.

    Afinal devemos ponderar e ver sempre os dois lados de cada situação, e não nos guiar por posições extremistas que nem sempre representam na totalidade nosso pensamento.

    Porém para os libertarismo não existe ponderação ou meio termo, para eles o culpado é e sempre será o Estado, e a solução é elimina – lo. Este modo de pensar é um prato cheio para fomentar o ódio daquela que já guardam rancor da ineficiência do Estado.

    É claro, nem passa pela cabeça deles tentar aperfeiçoar o Estado e sim transferir deixar na mãos dos bem motivados empresários e do livre mercado resolver os problemas do mundo.

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