Política

Rio de Janeiro vai às ruas contra a reforma da previdência

Por Rodrigo Duarte Baptista.

Na tarde de sexta-feira (31/03), ocorreu no Rio de Janeiro em muitas cidades do Brasil um ato unificado contra a reforma da previdência social. Os manifestantes se reuniram às 16h próximos à Igreja da Candelária, no Centro, após aproximadamente duas horas de falas dos representantes de partidos e sindicatos, o ato seguiu em direção à Praça da Cinelândia.

No histórico 31 de março, dia cunhado pelo Golpe civil-militar-empresarial de 64, além da pauta central do ato, netos e netas de militantes, torturados e mortos pelos militares no período ditatorial brasileiro (1964-1985), ergueram cartazes e veicularam panfletos em memória de seus entes queridos.

Iara e Manoel ‘’Ventania’’, militantes mortos pela Ditadura. (Foto: Rodrigo Duarte Baptista)

Iara Iavelberg era psicóloga e professora, militante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), morreu prematuramente aos 27 anos. O laudo controverso de sua morte aponta para suicídio, porém a família e os companheiros contestam tal laudo, alegando que ela foi assassinada pelos militares. Outro militante homenageado foi Manoel Aleixo da Silva, o Manoel ‘’Ventania’’, membro do Partido Comunista Revolucionário (PCR), lutou ao lado dos trabalhadores e sindicatos revolucionários da seu tempo. Aos 42 anos, foi sequestrado, torturado e morto, covardemente, pelos militares brasileiros.

Membro do sindicato afastando o cidadão agredido de perto da PM (Foto: Rodrigo Duarte Baptista)

O ato seguiu pacífico até as proximidades do Largo da Carioca, quando um soldado da Polícia Militar agrediu um manifestante que compunha o ato. A alegação do soldado foi que o cidadão se encontrava muito próximo do cordão de isolamento e se recusou a manter a distância imposta pelo policial. O autoritarismo da Polícia Militar se faz presente independente da postura dos manifestantes. Não é a primeira vez que a polícia agride deliberadamente um cidadão que agia pacificamente.

Discussão entre um trabalhador sindicalizado e um vendedor ambulante. (Foto: Rodrigo Duarte Baptista)

Enquanto os trabalhadores ligados a partidos e sindicatos se preocupavam em manter o clima pacífico do ato, trabalhadores ambulantes, esgotados das violências do Estado, se mantiveram ao lado do jovem agredido, dando voz às suas acusações: ‘’Eu vi! Aquele ali bateu nele! A Polícia bateu nele sem motivo! O rapaz não fez nada!’’, disse o vendedor. Nesse momento, para conter os ânimos dos envolvidos, os membros do sindicato se empenharam em afastar o jovem do soldado agressor. Bem como silenciar a voz do ambulante que, por não ser sindicalizado, parecia ter menos voz e direito de expressão que os demais.

PM salvaguardando a integridade do Banco Itaú, feito pra você? (Foto: Rodrigo Duarte Baptista)

Apesar do pacifismo do povo, o Estado ostentou seu aparelho repressivo. Dezenas de policiais estiveram fazendo a ‘’segurança’’ dos manifestantes. Mas, lançando um olhar mais crítico para além da multidão é possível observar o que a ideologia capitalista tenta mascarar: eis a humanização da coisa, a reificação do ser. A função ”social” da instituição policial é proteger a propriedade privada, não o povo.

Manifestantes expressando sua insatisfação para com a Globo, em frente ao Teatro Municipal. (Foto: Rodrigo Duarte Baptista).

O carro de som chegou à Praça da Cinelândia e os manifestantes rapidamente se posicionaram em frente às portas do Teatro Municipal. Uma das denuncias era contra a rede Globo, apoiadora do governo militar e propagadora de desinformações para o povo brasileiro. ‘’O povo não é bobo, abaixo a rede Globo!’’, foram os gritos ecoados pelos manifestantes.

Manifestantes independentes jogando a Globo na fogueira. (Foto: Rodrigo Duarte Baptista).

Com a manifestação caminhando para seu final, manifestantes independentes fizeram uma fogueira simbólica e nela lançaram um cartaz com a logomarca da rede Globo. Além disso, atearam foto em um pano com a palavra ‘’paz’’, em protesto pela morte da adolescente de 13 anos, Maria Eduarda Alves da Conceição, que foi assassinada com três tiros de fuzil, dentro da Escola Municipal Daniel Piza, em Acari. ‘’Paz para quem?’’, era o questionamento do povo.

Grande parte dos midiativistas se voltou para a cobertura das intervenções simbólicas dos manifestantes independentes, deixando o caminhão de som sem a cobertura midiática esperada. Os manifestantes ligados a partidos e sindicatos se dirigiram, então, para o local onde estava ocorrendo a ação direta e tentaram deslegitimar tal modo combativo de se manifestar. Houve discussão e os autonomistas explicaram os motivos da fogueira. Ao contrário da narrativa sustentada pela Grande Mídia, os autonomistas não só se utilizam da propaganda pelo fato para propagarem suas ideias. Houve diálogo, houve ação.

Apesar da relativa distância entre os autonomistas e o caminhão de som, um militante do PCdoB não soube respeitar as diversas práticas de demonstrar indignação. ‘’Eu sou comunista! Eu sou do partido comunista! Isso que vocês estão fazendo é coisa de babaca!’’, ele disse para os autonomistas que rapidamente apontaram as contradições históricas desse discurso pacifista. Além de apontarem as contradições de se protestar com som e bebidas alcoólicas enquanto a aposentadoria do povo é soterrada pelos governantes. Nem todos são a favor de se manifestar com um caminhão de som. Existem maneiras outras de expressar a ilegitimidade daqueles que nos governam.

O ato chegou ao fim por voltas das 21h, após o fim dos discursos no caminhão de som, das músicas, das danças e também da fogueira se apagar. Os/As trabalhadores(as) e estudantes, se manifestaram, de formas diversas, enquanto a minoria apostava na ação direta, a grande maioria dançava, seguia o caminhão de som cantando: ‘’Ai! Ai, ai ai! Se empurrar o Temer cai!’’. Contudo, Michel Temer sancionou o projeto de lei da terceirização. Só o/a trabalhador(a) é quem sempre sofre o verdadeiro golpe. Só o que cairá em sua cova é a classe trabalhadora, com menos direitos trabalhistas, porventura sem aposentadoria. Lutemos!

Rodrigo Duarte Baptista cursou Filosofia e está se graduando em Direito também na Universidade Federal do Rio de Janeiro, desde 2016 atua como jornalista independente.

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