Brasil

A Reforma Trabalhista e o silêncio vergonhoso da esquerda

Por Pedro Cazes

É uma espécie de senso comum a ideia de que o problema da esquerda é que ela não se une, mesmo nos momentos mais difíceis. Pois bem, hoje foi aprovada no Senado a Reforma Trabalhista, maior ataque já feito na história do país às conquistas de trabalhadores e trabalhadoras em termos de proteção e direitos trabalhistas, e podemos dizer com toda certeza que estivemos bem unidos no silêncio vergonhoso, na rotina automática da vida: nenhuma lixeira queimando, nenhuma bomba estourando, nenhum grito ecoando entre os prédios do Centro. Estivemos unidos até demais, aliás, nos últimos trinta anos de hegemonia petista nas esquerdas em torno de uma posição política voltada para as eleições, para a gestão do capitalismo “de resultados” e para a desmobilização popular. Continuamos bem unidos na dependência das “grandes Centrais Sindicais” para articular uma luta nacionalmente contra as medidas de Austeridade (nome que aliás não conseguimos nem disseminar para relacionar o que se passa aqui com a rodada mundial de “ajuste” econômico significando perda de diretos e aumento da exploração), centrais que também são bem unidas na política corporativista, na lógica do aparelhamento, na burocratização e afastamento da base, no oportunismo eleitoreiro, na predominância dos mesmos partidos políticos.

Mesmo depois de Junho de 2013, que foi o ensaio ou a promessa de uma articulação de luta social que não dependesse mais desses canais tomados por pelegos burocratas, continuamos reféns das decisões das cúpulas partidárias, das decisões de cima pra baixo, calculadas pela próxima rodada de distribuição de cargos e recursos em Brasília. Acreditamos que o desgaste do governo Temer ia frear a aprovação das reformas. Ficamos esperando a Greve Geral que não veio, ou melhor, que foi boicotada por essas muito unidas centrais sindicais. Centrais que, como a CUT, apoiaram diversas medidas semelhantes mas menos drásticas aprovadas por Dilma como o PPE (Plano de proteção ao emprego) que previa o negociado sobre o legislado, diminuição de salários, etc. CUT que também foi enviada, junto com a Força Nacional, para conter a rebelião dos operários da hidroelétrica de Jirau, em 2011, e dos operários do Comperj, em 2014. Centrais bem unidas aos Aparelhos Repressivos de Estado, portanto.

Estamos, aliás, sempre muito unidos numa retórica auto-referente, num narcisismo nostálgico ou imbecilizante (e isso vai dos “comunistas velha-guarda” até os petistas de plantão), numa bolha de facebook, dialogando sempre com os nossos iguais (mesmo quando eles são diferentes do ponto de vista de raça, gênero, sexualidade, etc), chamando quem não concorda de “fascista”, de “coxinha”, ou qualquer outra coisa. Como se a coisa mais importante fosse ficar discursando para convencidos, nos fechando em círculos mais puros, onde a discussão política seria desnecessária, porque só confirmaria o que já sabemos. Tudo isso faz a gente ficar de costas pro trabalho real de articular, lá onde a palavra diz pouco e o ombro a ombro é mais importante, o sofrimento, a indignação, a insatisfação, tão bem amparadas e ouvidas pelas comunidades religiosas – só pra dar um exemplo.

Pra mim o impasse da esquerda no Brasil hoje é que, mesmo quando se entende que o capitalismo não vai mais “promover desenvolvimento” nenhum, ninguém quer/aguenta ter o TRABALHO de reconstruir organizações políticas capazes de tirar a gente da dependência dessas centrais podres e desses partidos de lobistas, mantendo-nos reféns da lógica de “redução de danos” via eleição do Lula (que aliás já disse que não vai desfazer as reformas de Temer – Oh! Que supresa!!!) ou coisa que o valha. Não à toa é em torno do inferno chamado TRABALHO que será queimada a vida de uma geração de empreendedores de porra nenhuma, de autônomos da miséria e do subemprego, etc. A classe dominante no Brasil tacou fogo na casa e está segura no alto de sua mansão murada.

Espero que saibamos canalizar a revolta e construir uma resposta coletiva a altura.

Liberdade para Rafael Braga Vieira
R.I.A

“Que as chamas da insurreição iluminem o caminho para a liberdade”

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