Tecnologia

Redes Mesh e a comunicação para além da Internet

Whatsapp, Facebook, Instagram, Twitter, Yahoo, Gmail. Todos esses serviços funcionam dentro da Internet, uma enorme rede que engloba redes de computadores interagindo através de protocolos de comunicação entre máquinas que têm a função de determinar como os dados trocados são empacotados, direcionados, recebidos etc. É dentro dessa rede de redes que encontramos a WWW, que também usamos para acessar os serviços mencionados através de nossos navegadores (Firefox, Google Chrome, Internet Explorer etc.). O acesso à Internet em geral depende de uma empresa provedora do serviço (Vivo, NET, Claro etc.), e o computador usado possui um número associado a ele que serve para identificação dentro da rede. Tudo isso é possível devido a uma enorme infraestrutura que atravessa o planeta, contando com cabos submarinos que ligam seis dos sete continentes e são responsáveis por 99% do tráfego de dados na Internet. Mesmo que você esteja na rua usando o Facebook através de uma conexão 3G ou no trabalho usando a rede Wi-Fi de seu escritório para enviar uma mensagem de email, seus dados precisam ser redirecionados pelo provedor e acabarão passando pela chamada “espinha dorsal” (backbones) da Internet antes de chegarem ao seu destino final

veja um mapa aqui:
http://www.submarinecablemap.com

Nós tendemos a supervalorizar nossa liberdade e autonomia dentro da rede devido ao fato de que podemos gerar e divulgar conteúdo em blogs, sites, redes sociais; podemos desenvolver programas e colocá-los na Google Play para que as pessoas baixem em seus celulares; podemos estabelecer negócios e fazer transferências bancárias; dentre uma infinidade de outras coisas. Se podemos fazer tantas coisas sem pedir autorização (em geral) para ninguém, a Internet parece nossa no fim das contas. Imagine se fosse necessária uma autorização da prefeitura de sua cidade para colocar um portal de notícias ou um blog sobre poesia no ar? Pagando pelo acesso, todo o resto parece estar ao nosso alcance. Mas tudo isso se dá nas pontas da Internet, e ela foi concebida para ser assim mesmo. É esse o caráter da coisa toda que garante inovações intermináveis e a exploração da criatividade humana de tal forma que vemos a Internet se expandindo para incluir cada vez mais possibilidades. Mas qual controle existe sobre a infraestrutura que permite a existência da Internet como conhecemos?

No ano passado, a Google bancou a instalação de 6.000 quilômetros de cabos submarinos junto com empresas asiáticas de telecomunicações, um projeto que custou cerca de 300 milhões de dólares. Em 2012, a empresa Facebook Inc investiu em uma rede de cabos intra-asiática junto com outras empresas, sendo a única de fora da Àsia. Parte das motivações para o investimento era o número crescente de pessoas usando a rede social da empresa (de onde vem o lucro pra pagar essas coisas se você aparentemente não paga pra usar?). Em 2013, Mark Zuckerberg, dono da Facebook e Larry Page, CEO da Google, negaram qualquer participação ativa nos esquemas de vigilância em massa da agência nacional de segurança dos EUA (NSA), agência acusada justamente de monitorar o tráfego de informações que passa pela “espinha dorsal”: os cabos submarinos. Quando o ex-funcionário da NSA Edward Snowden deu ao mundo uma série de documentos vazados revelando como funcionava a violação de privacidade em massa promovida por agências de inteligência, ficou claro que ambas empresas colaboram ativamente com o vigilantismo. Para fugir da espionagem do governo estadunidense, nosso governo resolveu que investiria em cabos ligando o Brasil diretamente à Europa, e essa rede seria feita sem participação de qualquer empresa dos EUA. Mas isso não significa nada para nós: se o governo brasileiro pode escapar assim de certo monitoramento, pode também nos monitorar de forma mais eficiente através de seus próprios setores de inteligência.

A Internet, em sua estrutura física, não é nossa. Os cabos pelos quais nossos dados passam pertencem a governos, empresas e outras instituições. Uma decisão de grampear qualquer cabo desses não passa pelas pessoas mais afetadas negativamente. Já as tentativas de controlar as pontas da Internet, onde nós estamos, são inúmeras e cada vez mais absurdas. Censura e até suspensão de alguns serviços são realidade em diversos países. Formas de contornar esse controle dos governos sobre nosso acesso à Internet são cada vez mais difundidas, segurança e privacidade são temas cada vez mais discutidos e urgentes. Mas, o que podemos fazer para escapar da vigilância, da censura, do controle, para além de criarmos bolhas de segurança dentro de um território hostil e dominado por governos e corporações? Embora os focos de resistência sejam importantes para que não entreguemos tudo a quem nos vê apenas como fonte de lucro ou ameaça, uma outra opção pode ser interessante: simplesmente se comunicar fora da Internet.

Com a realidade dos grampos (muitas vezes ilegais) em telefones celulares, e a perseguição da Anatel às rádios que tentam produzir outras formas de comunicação, um caminho é o uso de redes mesh, ou redes em malha. Essas redes não dependem de servidores, de empresas provedoras de Internet, nem de cabos submarinos. Apesar de programas que permitem a formação de redes em malha também funcionarem com acesso à Internet, a grande vantagem deles é poder usar a tecnologia já existente em celulares (Bluetooth e Wi-Fi) para conectar vários nós em rede. Esse tipo de rede é:

i) Descentralizado: a movimentação dos dados não depende de hierarquias, cada celular usando um programa para formação de redes mesh é responsável pela própria existência da rede pode exercer as mesmas funções do que as outras.
ii) Resistente: se um celular na rede ficar sem bateria ou acontecer qualquer coisa que impeça o aparelho a permanecer na rede, o tráfego de dados é redirecionado para saltar para outro nó, de forma que a conexão não é interrompida. Assim, quanto mais pessoas na rede, mais resistente e eficiente.
iii) Pode se expandir e englobar uma cidade: dependendo da quantidade de pessoas usando, é possível que o alcance de uma rede em malha seja praticamente uma cidade.
iv) Tem baixo custo de implementação: não há custo de uso (coisas como franquia de dados), depende de aparelhos celulares já existentes e os programas para comunicação nesse tipo de rede existem e não precisam de modificações radicais.
v) Pode ser usado de forma ainda mais segura caso necessário, com uso de chats privados e criptografia.
vi) Não depende de servidores de uma empresa para uso e muito menos de empresas provedoras de acesso à Internet que podem armazenar seus mais variados dados e entregar para autoridades judiciais ou policiais.
vii) O mais importante: existe fora da Internet, fora de um campo de atuação eficiente de agências de inteligência e de outras estruturas repressoras do Estado. Sem as infiltrações de agentes para buscar dados em grupos de chat, o Estado pouco pode fazer, nem mesmo cortar o toda a Internet do país. Não há empresas envolvidas que podem colaborar com o Estado. O trabalho da repressão é consideravalmente maior e mais complicado. Com criptografia, pode chegar a ser um trabalho impossível.

No Iraque, em 2014, um aplicativo chamado Firechat chegou a ser baixado por mais de 40 mil pessoas em uma semana, após o governo implementar repetidas formas de censura na Internet e controle ao seu acesso. Criado pela empresa Open Garden, esse programa tinha como propósito permitir a comunicação entre pessoas em situações onde a conexão fosse ruim, como em estações de metrô e shows superlotados. Para isso, usava tecnologia apropriada para criação de redes em malha, ao invés de insistir na Internet. Em Hong Kong, foram mais de 100 mil downloads em 24 horas. O motivo foi a Revolta dos Guarda-chuvas, que se colocava contra a atuação do governo autônomo de Hong Kong, pedindo a renúncia de seu chefe Leung Chun-Ying, e contra a proposta do governo em Pequim de modificar o funcionamento das eleições locais em Hong Kong para manter cada vez mais poder sobre o destino da região. O Firechat permitiu às pessoas se organizarem e se comunicarem pelas costas do governo. Sua utilidade política se tornou tão popular que os criadores do programa tiveram de implementar criptografia e outras medidas de segurança para que ele se adequasse ao seu novo uso. Ele, assim como outros programas, pode ser usado para comunicação pós-tragédias naturais. Um terremoto ou furacão que derrube torres de celular e corte a distribuição de energia elétrica em alguma região afeta drasticamente a comunicação via Internet, de forma que as redes em malha permitem que as pessoas organizem de forma ágil e prática buscas por pessoas desaparecidas, coletas de doações e outras ações voluntárias enquanto tiverem bateria em seus celulares.

Isto não é necessariamente uma recomendação desse programa específico. Existem outros parecidos, embora o Firechat tenha ganho uma popularidade maior na política. E o código dele é fechado, o que significa que não podemos usá-lo para modificá-lo de forma a produzir um programa mais adequado aos nossos interesses e às nossas necessidades. Já alguns outros permitem que seu código seja usado para construção de outras versões desses programas, como o Seval Mesh (http://www.servalproject.org/) e o Briar (https://briarproject.org). Esse último lista uma série de amaeaças que podem ser neutralizadas com o uso do aplicativo: coleta de metadados (dados sobre as informações que você transmite) por agências de inteligência, censura e remoção de qualquer conteúdo, cortes generalizados de Internet. Existem outros usos ainda para as redes em malha e os aplicativos que permitem sua construção. Com uso de alguns roteadores em prédios de universidades, é possível garantir redes de troca de informações e arquivos para a comunidade acadêmica e para as pessoas morando em seu redor (algo experimentado na UFF por exemplo, no projeto ReMesh). Cada comunidade no Rio poderia ter sua rede em malha para esse mesmo tipo de trocas, substituindo o Whatsapp por exemplo (isso se aplica às pessoas que de fato já possuem smartphones com Whatsapp em comunidades mais precárias, não é uma proposta para que todas as pessoas nesses locais usem redes em malha). Aplicativos para redes mesh permitem ligações e envio de SMS, de tal forma que um grupo de pessoas que precise de um pequeno sistema de telefonia interno pode usar essas tecnologias para se comunicar.

Os recursos são variados e as possiblidades de comunicação para além da Internet são muitas e promissoras. Principalmente para ativistas e pessoas em setores vulneráveis da sociedade, é possível se comunicar fora dos territórios vigiados e militarizados do mundo digital, de forma que as forças de repressão é que precisarão dar um jeito de obter informações para produzir perfis em um território hostil; pois tudo que o Estado não pode controlar, tudo que não pode gerar lucro para as corporações que operam em conjunto com o Estado, tudo isso é hostil para o mesmo. Além disso, se queremos um mundo onde o poder esteja diluido de tal forma que não mais oprima e submeta as pessoas, se queremos a horizontalidade e a descentralização, temos nas redes em malha um ambiente favorável onde podemos praticar a comunicação libertária com algumas amarras a menos.

Texto escrito por Victor Galdino do Partido Pirata-RJ.

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1 Comment

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  1. Anders Bateva

    6 junho, 2016 at 21:38

    Ah, eu pensei que iam falar de mesh em geral, mesh pra celular não me interessa, pois eu preferia não haver celulares.

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