Comportamento

Quem me ensinou a ser gay?

Por Schulner Martins.

Lembro que a primeira vez que eu senti atração por outro menino eu tinha apenas 7 anos de idade. Eu achava um menino do colégio bonito mas não discernia o que era aquela atração. Um dia no recreio o vi sem camisa e fiquei excitado pela primeira vez na vida, pelo que me lembre. Não entendi o que era aquilo e sai correndo pra sala de aula, envergonhado, sentei na cadeira, coloquei a mochila em cima do colo e fiquei torcendo pra’quilo passar logo. Nunca contei isso a ninguém e nem nunca perguntei a ninguém o que seria aquela reação. Com o tempo a vida me mostrou do que se tratava.

Uns anos depois comecei a sentir os primeiros impactos da homofobia sem nem mesmo saber que eu era gay. A lembrança mais distante que eu tenho foi por volta dos 8 anos de idade. Fui passar um fim de semana com os patrões da minha mãe, eles tinham uma filha da minha idade. Uma vez ela ganhou uma meia rosa feita de tricô pela avó e eu admirei bastante a meia e inconscientemente comentei que também gostaria de ter uma igual. O pai dela me repreendeu na hora, na frente de todos, dizendo que aquilo não era coisa de menino e que eu não ia querer ser chamado de mulherzinha por ai. Fiquei bastante constrangido com a situação e no fundo eu sabia que a repreensão não era apenas pela meia mas pela minhas características e meu jeito de ser.

A partir de então toda a minha pré adolescência eu convivi com comentários sobre minha sexualidade em um período que nem eu mesmo tinha noção do que era ser gay. Esses dias assistindo o filme Moonligth eu me identifiquei muito com o personagem central da trama. Uma das cenas que me emocionou bastante foi quando ele, ainda criança, após passar por várias situações de bullying homofóbico na escola e no bairro, questiona aos pais adotivos porque as pessoas o chamavam de “fag” e o que isso significava.

Daí comecei a pensar sobre isso e analisar como o discurso conservador, religioso e homofóbico de que homossexualidade é uma “opção” ou uma “escolha” é nocivo. Como pode ser uma “escolha” se antes mesmo de “escolhermos” já somos taxados de gays, viados, bichas, baitolas ou coisas do tipo, simplesmente pelo que nós somos e por esses sinais e características se mostrarem mesmo antes de termos noção do que somos?

Toda a minha infância sempre ouvi discursos contrários à homossexualidade por parte da minha família e da igreja. Lembro que um tio meu praticamente forçou o filho, que é bissexual não assumido, a gostar de futebol e lembro que esse meu primo fazia um esforço danado para ser “aceito” pelos primos e tios nas discussões sobre times, jogos e afins, por entender pouco do assunto. Hoje talvez ele já deve ter aprendido a gostar mas na época sua “paixão” pelo time era bastante forçada. Enquanto isso eu via as tentativas de uma outra tia em reprimir o comportamento “masculinizado” de sua filha, também bissexual. Hoje, ambos vivem com seus parceiros heterossexuais e nunca assumiram publicamente sua bissexualidade apesar de ser notório na família as relações extraconjugais com parceiros homo-afetivos que ambos já tiveram, mas todos fingem que não sabem.

Durante toda nossa infância, pré adolescência e adolescência somos ensinados a sermos heterossexuais e reprimidos quando qualquer sinal de homossexualidade surge. Durante toda minha infância e adolescência passei por isso. Sempre tive muito gosto por atividades ligadas a artes (decoração, pintura, teatro) mas toda vez que eu tentava fazer algo do tipo ouvia alguma piadinha de um tio, um primo. Talvez por isso não segui nada relacionado a essas aptidões na faculdade.

Na 5ª série (atual 6º ano) lembro que fui perseguido por um grupo de meninos da minha sala, simplesmente por eu ser diferente, por sempre ter mais amigas meninas, não gostar de futebol e coisas do tipo. Foi a partir dessas perseguições que comecei a me tornar uma criança e posteriormente um adolescente tímido, com medo de se expressar, com medo do que os outros pensariam de mim. Características que ainda carrego um pouco até hoje.

Ninguém nunca me ensinou a ser gay. Apenas sou! Pelo contrário, sempre me ensinaram a ser hétero. A escolher ser hetero. Definitivamente não é uma opção, não é uma escolha. Apenas somos o que somos! E hoje 34 anos depois de muita barreira derrubada que posso dizer que sim, com muito orgulho.

Feliz Dia do Orgulho LGBTI.

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