Brasil

O último preso de Ilha Grande

Júlio Almeida, 85 anos foi o último preso do Instituto Penal Cândido Mendes na Ilha Grande, onde também ficaram presos políticos, o escritor Graciliano Ramos e foi fundada a primeira facção criminosa do Rio de Janeiro

A praia de Dois Rios fica do outro lado da Ilha Grande, Rio de Janeiro e dista 40 minutos de barco da praia de Abraão – principal praia e ponto de chegada de turistas e das barcas vindas de Angra dos Reis. Neste pedaço de paraíso foi construído em 1931 o presídio federal de segurança máxima Cândido Mendes e sua função era manter presos de ‘alta periculosidade’, visto que a localização da prisão tornaria impossível a fuga.

O presídio ficou conhecido como ‘Caldeirão do Inferno’, seja pela presença dos criminosos mais ‘perigosos’, fosse pelo tratamento recebido pelos presos que era uma rotina de trabalho forçado, torturas, agressões e violência por parte dos funcionários.

Praia de Dois Rios

Praia de Dois Rios

Algumas figuras famosas da história do crime do Rio de Janeiro passaram por ele também, uma delas foi o traficante José Carlos dos Reis Encina o Escadinha que protagonizou uma fuga cinematográfica no dia 31 de dezembro de 1985 sendo resgatado por um helicóptero que pousou na ilha e levou o preso.  O transformista célebre da Lapa Madame Satã também esteve nestas instalações. Júlio Almeida conta que uma vez o viu dando uma navalhada em um funcionário em uma briga, o que rendeu a ele algumas noites na solitária.  – Aqui nesta ilha estava toda a bandidagem mais perigosa do crime. Disse seu Júlio.

Foto da fachada de parte do presídio – Vito Ribeiro

Júlio Almeida: da cela para vida pacata na ilha como artesão e vendedor de redes de pesca

Em um casa simples na pacata vila de moradores que antes abrigava os funcionários do presídio, reside Júlio Almeida e sua família. Ele que chegou ao presídio Cândido Mendes como preso em 1962 vindo do Lazareto (presídio do outro lado da Ilha Grande, na praia de Abraão desativado em 1963), cumpriu pena até 1994 (quando o presídio foi desativado e implodido pelo governo Brizola) e ele posto em liberdade condicional. – Eu tinha que ir na rua Erasmo Braga no Rio de Janeiro assinar meu alvará de soltura, porque na teoria eu ainda sou detento. Depois que fui solto não fui lá assinar. A vida que levo aqui é muito tranquila e isso já não faz mais diferença agora. Para logo depois dizer que já não escuta e não enxerga tão bem.

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A vila de moradores com cerca de 50 casas onde anteriormente viviam os funcionários do presídio e seus familiares

Como o presídio tinha um sistema de trabalho agrícola, seu Júlio já estava acostumado a trabalhar na roça da região, já tinha feito sua família e quando liberto não pensou duas vezes em se estabelecer por lá mesmo. – Na verdade eu quero morrer aqui mesmo na ilha. Tenho 85 anos e passei 32 preso, quase metade da minha vida aqui nesse lugar. Disse.

Em umas das tantas estórias que contou, seu Júlio revelou que deu uma espécie de consultoria a Escadinha sobre como seria possível fugir desse presídio, visto que ele mesmo havia fugido duas vezes. – Disse a ele que de barco seria impossível. Que a saída seria pelo ar. Mas eu não estava no plano, apenas dei essa informação porque conhecia muito bem a ilha e sabia que sair dali de barco pra Angra ou Mangaratiba sem ser pego não ía ser possível. Conta quase rindo.

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Seu Júlio e as peças de artesanato que produz

Quem olha esse senhor atualmente não imagina que seu passado guarda tantas estórias de assassinatos, roubos e motins de presos pelas galerias por onde passou. Memória que ele se sente orgulhoso de lembrar e contar.  Desde que foi posto em liberdade, seu Júlio divide seu tempo entre produzir redes de pesca que vende aos pescadores da região e peças de artesanato que produz com materiais encontrados na ilha e estão em exposição em museus de Ilha Grande e do Rio de Janeiro.

Sobre sua história no crime conta que fugiu da casa da mãe em Chiador, Minas Gerais com 16 anos e foi morar na rua. Depois do serviço militar se mudou pro Rio de Janeiro onde começou a cometer crimes. Condenado por roubos e um homicídio foi mandando para o presídio do Lazareto e depois transferido para o Cândido Mendes.

Seu Júlio é a memória viva de um história que muitas vezes fica esquecida pelo estereótipo que carrega a população carcerária. É visível que ele gosta de lembrar e contar sobre estes tempos: – Aqui os presos tinham um sistema de trabalho no campo, o que dava a condição de trabalhar o dia todo na roça e voltar pra cela apenas pra dormir. Não tenho tristeza quando lembro de tudo que passei. Estava preso, mas muitas vezes me sentia solto.

O regime de trabalho em turmas possibilitava muitas fugas. Para reprimi-las, grupos de guardas ou policiais militares, conhecidos como “cachorrinhos-do-mato”, organizavam verdadeiras caças aos presos que se evadiam: estes, segundo os relatos, muitas vezes eram amarrados nus em árvores e espancados até a morte.

A ditadura e os presos políticos de Ilha Grande

Em 1964 se instaura no país o regime militar e a partir da Lei de Segurança Nacional (Decreto – Lei 898 de 1969) o presídio Cândido Mendes passa receber presos políticos vindos de diversas organizações. Guerrilheiros de organizações como Var Palmares, Colina, ALN e MR8 estiveram presos na Ilha Grande e dividiram as instalações com outros presos que já estavam sob custódia na ilha. Alguns historiadores atribuem a essa convivência o embrião da criação da Falange Vermelha.

A Fundação do Comando Vermelho

William da Silva Lima - Conhecido como Professor

William da Silva Lima – Conhecido como Professor

 

William da Silva Lima, conhecido como Professor, foi um dos fundadores da Falange Vermelha, que deu origem ao Comando Vermelho, no final dos anos 1970, no presídio Cândido Mendes. De acordo com o jornalista Carlos Amorim, autor do livro “Comando Vermelho – A História do Crime Organizado”, a maior facção criminosa do Rio de Janeiro “foi fruto da convivência entre presos comuns e presos políticos durante a ditadura militar (1964 – 1985). Assaltantes e homicidas aprenderam a ler com professores encarcerados por delitos de opinião. Participaram dos ‘coletivos’, uma espécie de ‘comando das cadeias’, chefiados por revolucionários”. Na imagem ao lado, William aparece preso em foto de 1973. Atualmente, o “Professor” conta com mais de 70 anos e é considerado o único sobrevivente entre os fundadores da facção.

Esta história já foi tema de alguns filmes como ‘Quase Dois Irmãos’ de Lúcia Murat e ‘400 Contra 1’ filme de Caco Souza baseado no livro autobiográfico Quatrocentos contra um – A história do Comando Vermelho de William da Silva Lima.

 

 

Museu do Cárcere

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Exposição de artesanatos da região. Dentre eles os trabalhos de Seu Júlio – Foto: Vito Ribeiro

Em 2009 as ruínas do presídio se tornaram um museu que abriga exposições sobre os presídios do Brasil, exposições de artesanatos como os que produz seu Júlio, além de outras exposições. O Museu do Cárcere fica aberto todos os dias para visitação gratuita.

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Foto em exposição no museu

 

 

 

 

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