Luta Contra o Racismo

O OSCAR E OS NEGROS AMESTRADOS

POR CRIS OLIVEIRA

 

Sempre achei o Oscar uma tremenda babaquice. Os “Academy Awards” foram criados para frear os avanços dos sindicatos de Hollywood, formando um clube elitizado de diretores, produtores, atores etc – os membros da tal “academia”. Porém essas premiações têm lá seu impacto na cultura de massa e eu entendo o porquê de artistas negros reclamarem da exclusão.

Eu não sou cinéfilo e não sei quais filmes foram lançados em 2015 além do novo Star Wars. Não sei quantos atores negros estrelaram filmes grandes ou pequenos recentemente. Não sei quantos deles mereciam ganhar prêmios. Imagino que se há menos atores negros contratados para papéis de destaque, menos negros levarão o Oscar – e isso é um problema. É difícil demonstrar sua qualidade de trabalho se não há trabalho. E se há um bom número de atores, diretores, etc negros trabalhando, então há uma outra questão: seriam eles menos talentosos que os brancos ou será que há uma resistência da academia em premiá-los?

Aí entra a tal da entrevista do Milton Gonçalves. Eu ouvi quase 7 minutos e meio dela e não tive mais saco. Mesmo assim, certos aspectos me chamaram atenção, como por exemplo, como ele descreve situações claras de racismo que ele diz simplesmente não incomodá-lo. É uma entrevista muito confusa que ele dá. Ele diz que há discriminação em todo lugar, mas o que acontece a ele quando ele visita os EUA não o incomoda porque a luta pelo direito dos negros lá é “levada a sério”. Fala ainda que os direitos dos negros nos EUA estão assegurados por lei e, por ser um país democrático, se um sujeito não gosta de negros, ele pode simplesmente se afastar.

Aqui ele demonstra não perceber o vão enorme entre a existência de uma legislação, o aspecto formal da coisa, e o aspecto real, factual. Os direitos dos negros nos EUA são levados a sério, mesmo com tantas notícias que nos chegam de lá sobre abuso policial contra negros? E o percentual de negros na população carcerária do país (a maior do mundo)? E a divisa cromática entre as classes sociais existente na sociedade norte-americana?

Prisão no Arizona nos EUA. O país tem maior população negra em carcere no mundo.

Prisão no Arizona nos EUA. O país tem maior população negra em carcere no mundo.

Então Milton Gonçalves afirma que, se a academia não tem dado prêmios a negros recentemente, é porque os negros do presente não mereceram os prêmios, da mesma forma como os negros no passado já mereceram e receberam. Logo a academia não é racista. Posteriormente, ele cita um exemplo em que ele próprio, quando ainda no inicio de carreira como diretor da Globo em 1965 (reparem nesse dado: ele começou como diretor da Globo no ano de sua fundação, ou seja, logo após o golpe militar que o jornal O Globo acabara de apoiar, golpe esse que possibilitou a criação da emissora de tv). Milton havia dito “não tem como mim fazer” e teve o português “corrigido”. Através desse exemplo, ele quis dizer que não é porque ele é negro que ele não teria de se esforçar para aprender e que também os brancos estão sujeitos ao erro e precisam se esforçar.

Sério que esse Milton Gonçalves foi chamado de ativista histórico por alguns sites? Tá, ele participou da criação do MDB, o partido que abrigou institucionalmente o direito de oposição concedido “benevolentemente” pela ditadura burguesa-militar. Participou também da criação da Rede Globo. Eu não me comovo com os criadores de partidos dentro da democracia, por que me comoveria com criadores de partidos legalizados dentro de ditaduras? Teria mais conceito meu se tivesse criado uma guerrilha, mas considerando no que certos guerrilheiros e afins do passado se tornaram (Dilma, Aloísio Nunes, José Genoíno, Franklin Martins, Fernando Gabeira, etc…), talvez eu prefira que tudo se exploda.

Essa ideia de que os próprios negros são os culpados pelas mazelas que atingem de forma generalizada a categoria racial é justamente o que negros amestrados defendem, como o conservador Bill Cosby notoriamente fez até que a revelação de que ele era um estuprador em série o calou de vez. É o discurso de homens incapazes de solidariedade, que baseiam sua visão de mundo nos privilégios particulares que lhes foram concedidos, sem nem ligar pro fato de que são eles mesmos apenas exceções à regra. Me lembra como pateticamente Morgan Freeman afirmou não haver mais tensão racial nos EUA porque ele e o entrevistador eram negros e tinham empregões na mídia. Enquanto isso, as ruas ardiam em chamas. Isso é miopia intelectual!

Morgan Freeman reproduzindo discurso desmobilizador para a causa.

Morgan Freeman reproduzindo discurso desmobilizador para a causa.

Vamos então para alguns números. No Brasil, a população negra é de mais da metade. Apenas 17,6% dos médicos públicos são negros – eu não me lembro ter sido atendido por médicos negros, mas já fui atendido por vários enfermeiros e recepcionistas negros. 22,7% dos advogados e juristas são negros. 31,8% dos professores universitários públicos são negros. Em contrapartida, 70,2% dos lixeiros são negros. 68% das mortes violentas no Brasil é de negros. Mundialmente, entre mais de 800 indivíduos premiados com o Nobel, apenas 15 – EU DISSE QUINZE! – são negros. Se eu levar a sério a ideia de que o reduzido destaque dos negros na cultura e no mercado de trabalho se devem, estatisticamente falando, à baixa qualidade do seu trabalho realizado, então eu serei obrigado a concluir que negros são inferiores! E eu não farei isso!

Embora possamos ver, através dos comentários nas páginas sobre o assunto, que o senso comum tende a concordar com as afirmações de Milton Gonçalves, as consequências dessa linha de pensamento são nefastas.

Cris Oliveira é cartunista.

Jovens em protesto no Brooklyn-NY durante os anos da década de 1990.

Jovens em protesto no Brooklyn-NY durante os anos da década de 1990.

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1 Comment

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  1. David

    29 fevereiro, 2016 at 10:49

    Excelente texto!

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