Feminismo

O Mercado Nosso de Cada Dia

Por Aline Hamdan.

No amor, transmutar a couraça é resistir e não se transformar em mais-valia.

Era o tempo, o mundo era o nada, não havia diálogo, só uma linguagem intuitiva . Então um deus decidiu criar uma pessoa idealizada, que pela convivência habitual, resultaria na mulher cujo fim havia sido o início: a primeira, para uns, Gaia, mas para outros, Eva: aquela que teria nascido a partir da costela de um homem ainda adormecido. Se ele dormia, ela sonhava? E ela quando despertou, perambulou em busca do sonho perdido e em terra almejou o incessante conhecimento sem nunca alcançar, pois da sua mão consumou-se o crime da tentação e tentada vivia com a maldição de ser eternamente incompleta. Ainda no paraíso, foi lhe dito o primeiro mandamento: “Senhora, encontrai a vossa metade.”

Parte a Humana para a terra, o sonho lhe causava prazer apenas enquanto delírio e viver lhe causava dor, então optou em não por os seus chãos em terra, esta seria a razão primeira da intuição práxis. Tornou-se uma cristã culturalmente adaptada, esqueceu Lilith, a deusa do instinto, aquela que não era fiel à moral. Depois esqueceu a Egípcia Maat que, após a morte, pesava a alma das pessoas com o valor do coração de cada um. Ainda lembrou para sempre do Livro Sagrado que lhe ditava o segundo mandamento: “Senhora, ama-te o próximo como a ti mesma”. Por ora, se tivesse sido idólatra de Apolo, saciada de vinho, embriagado-se de volúpia, fosse feliz na solidão e tivesse um pensamento mais autônomo… talvez hoje não tivesse se tornado uma rufiã da alegria ( meras ruminações).

A humana trabalhava 10 horas por dia conforme o terceiro mandamento: “, Trabalhai e descansai no sétimo dia”. No sétimo dia, desejou um mundo de puro hedonismo, cansada da vida, então parte para a Sala dos Prazeres. Ela senta e folheia o livro com a paciência de um urso faminto: capítulo 38: “não perturbai a ordem alheia”. Ela não suporta sentir aquela melancolia, se distrai e age de forma impulsiva. Ela sai desesperada pelos corredores da Biblioteca magnífica, aos prantos, vê o “Guarda-dor” de livros, abraça-lhe , vê o humano, mas não reconhece que ele é o guardador da sabedoria. Ele lhe diz: -senhora, o livro que procura está na estante 12. Ela enxuga as lágrimas e sente vergonha de ser dramática. Então, trêmula, pega o livro dos saberes mundanos, abre no capítulo da vida e lê aquele que seria um excêntrico mandamento: “ Depois de ter passado por todo tipo de sofrimento, será eternamente livre, só há livre-arbítrio após a morte terrena”. A humana grita: mundo, por que me enganaste? E então blasfema: mundo, mundo, a única verdade revelada era viver o inferno, de olhos atentos aos céus, busquei esta humilhação, vivi o desequilíbrio real, eu, um ser fictício, sempre busquei a justiça através da intangibilidade do paraíso.

Ela desacorda e acorda no limbo por sucessivas vezes infinitas. Porém, finalmente desperta e perambula durante o ano revolucionário para o homem e o cidadão, 1789. A humana olha para o lado direito e vê uma gravura que diz “o sono da razão produz monstros”. Seu medo a petrifica diante da frieza com que os outros lidam com sua singularidade imposta a marretadas. Todos riem dela e cospem na sua cara, ridicularizam seu drama feminino, lêem seu pensamento e a escarnecem, até que uma águia lhe diz: Humana, uma única riqueza seria seguir seu instinto e ainda assim fracassastes, tu adorastes tanto a vida quanto a morte, nunca fostes capaz de examinar com a luz da razão uma coisa da qual dependeria a sua alegria ou a sua desgraça. Na vida comum, tonou-se uma besta social , uma navalha que não serve para a carne. Quem disse que teria uma predestinação? Lembra quando você nasceu envolta em saberes e foi aquecida por abraços amorosos?

-Assim o mundo te devora: Você é uma mera coincidência da fatalidade, poderia não ter nascido. Sabe o que dizem nossos juízes a seu respeito? És tão singular quanto uma pedra que não se move. Não adianta querer se adornar com uma adorável prosa, você é provisória e a sua sabedoria já nasceu extinta. Tudo o que é feito a partir de agora é ilusão, acorde, não há nada demais em tentar ser um pouco menos lúcida, amanhã não dará tempo.

Eram risos infernais que lhe sacodiam a alma e cantavam: Seu corpo se resume às regras do sistema, o espírito pode ser leiloado, o direito de ser já foi apropriado.

Neste momento, chegam três deusas com flores de minerva e paira um aroma de arruda . Elas sentam diante do altar e vêem a humana trêmula e olhar assustado, ainda assim ditam a sua sentença:
– Ajoelha-se mas por que não se rebela?
– Eis a sua sentença : (Uma voz uníssona proclama)
– “A morte te seria incômoda, por isso decidimos que irá viver para conduzir e não mais reproduzir existência..”

A humana acorda do sono profundo, sorri, pois há um pássaro a cantar na sua janela. Daqui algum tempo, ela florescerá e distribuirá seus frutos, mas o fim do mundo jamais ocorrerá: muitos nascerão e outros estarão extintos, mas ninguém encontrará a sua paz sem luta, nem a sua metade por sermos inteiras, o amor assim resiste.

Aline Hamdan é advogada ativista, atuando no movimento popular independente do Rio de Janeiro.

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