Política

Não sou rica

Por Ivna Feitosa.

Não sou rica, digo eu no meu confortável Dell XPS com internet de 25 megas. Daqui da Zona Sul do Rio, digo que não sou rica, porque rico é quem tem iate e conta em paraíso fiscal. Da perspectiva da classe média a que pertenço, não estou errada. Do ponto de vista da maioria da população brasileira, eu cago dinheiro.

Que me desculpem os colegas de classe, mas só não enxerga quem não se enxerga. Nosso dinheirinho relativamente rarefeito nos garante amplo acesso à informação e ao conhecimento, tempo livre para ler e escrever, várias cervejas na São Salvador num fim de dia de quarta-feira, moradia certa, refeição assegurada, distância de balas perdidas.

Podemos, do alto das nossas vantagens inatas, ter o luxo de nos servir da língua culta academicamente venerada para redigir elaborados textos de opinião sobre política, capitalismo, feminismo e até racismo – mesmo sendo brancos. Eu posso, me sentindo a expert à espera de curtidas da rica e virtual bolha de esquerda, sair das regras da boa redação e repetir quatro vezes a palavra poder em uma frase para exprimir a seguinte ideia.

O poder político dos altos poderes econômicos ultrapassa em muito o poder político conferido pela Constituição ao poder público. Em suma, não existe, por excelência, poder público em si. Há o que podemos chamar de poder privado-público: aquele que controla a abrangência e a força da máquina do estado para assegurar interesses do topo da sociedade que, assim, garante a manutenção, seja como for, de seus seculares privilégios.

O parágrafo acima não seria redigido para as classes mais pobres. E o motivo não é o de falta de compreensão. Ao contrário, seria o fato de que a maioria da população conhece isso muito bem. Ela não precisa, como nós, interpretar estudados conceitos e esforçados pensamentos. Não precisa de palestras com renomados professores explicando o que é violência de classe. Seu cotidiano dá conta desse entendimento. Sua pele sabe de cor essa realidade.

Nós, agasalhados por uma aura de superioridade pueril, apontamos nos políticos inimigos da vez aquilo que não queremos enfrentar no espelho. O que neles não conseguimos escoar, largamos no colo daquela tal esquerda que dizemos com toda pompa que não é esquerda nada. Neguemos ou não, também seguramos com oratória e hipocrisia nossos seculares privilégios. Um desses privilégios, em especial, usamos unhas e dentes para proteger: o de ter razão.

Precisamos enfrentar a luta de classes e descer do nosso palquinho demagogo. Abandonar um pouco as cativantes discussões de umbigo rico para umbigo rico. Baixar nossas orelhas e aprender a escutar sem os filtros da cultura de pedigree. Precisamos aprender a ler os fatos em vez de buscar verdades enlatadas por escritores de vanguarda que caem aconchegantemente como uma luva na nossa cegueira seletiva.

Senão, aquele abaixo o capitalismo que sentimos com tanto fervor continuará não passando de uma camiseta revolucionária. Do tipo comprada numa despretensiosa pechincha com algum camelô que, tenso, mantém sempre um olho nas contas e o outro na Guarda Municipal; um braço nas mercadorias e o outro na proteção da casa a ser invadida pela Polícia Militar; um coração repartido entre alimentar os filhos e ansiar por um pedaço de dignidade e respeito.

Precisamos, enfim, realizar: não somos especiais. Longe disso. Fazemos para o mercado o papel de cabo de guerra; exaltamos as mazelas da exploração, mas não abrimos mão da corda. Enquanto não enfrentarmos nossos espelhos, nossa educação segregante, nosso troninho de intelectual progressista, seguiremos sendo marionetes patéticas da cultura elitista do capital.

Arte de capa: Moisés Cartuns.

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