Midiativismo

Mil faces de um homem leal – Homenagem a Carlos Marighella

Por André Severiano.

Há 53 anos, em 9 de maio de 64, Carlos Marighella, o “Valente”, como foi apelidado pela polícia, foi baleado e preso numa das salas do cinema Eskye-Tijuca.

Mesmo sangrando por três perfurações, um Marighella de 50 anos ainda lutou capoeira contra um dos agentes do Dops antes de bradar “Abaixo a ditadura militar fascista! Viva a democracia! Viva o Partido Comunista!”

Abaixo, transcrevi um trecho do livro de Mário Magalhães, “Marighella: O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo”
“Na tarde do sábado, a cabeça de Marighella não estava sintonizada em música. Ele pressentiu a encrenca quando Valdelice caminhava pela rua Conde de Bonfim trazendo o pacote e a campana. No escuro do cinema, sentou-se para planejar a fuga. Já tinha escapado tantas vezes. Por que não dessa? Tinha que pensar rápido. Pela porta da frente não teria chance, e a saída lateral parecia temerária. Não ligou para o filme que arrancava gargalhadas do público infantil. Até que a projeção foi interrompida, e as luzes se acenderam.
O cinema não se ilumina por acaso, nem o projetor falha ou o projecionista se atrapalha na troca de rolos. A pane é uma farsa, ordenada por João Macedo ao gerente. Antes, ele e seu parceiro contaram os minutos para a chegada dos reforços. (…)

A tarde tem mais sabor para a estudante Elisabeth Mamede, seu irmão Celso e a prima Kátia. Aos catorze anos, Elisabeth foi autorizada pela família a ir sozinha pela primeira vez com os mais novos. Nenhum deles percebe, alguns metros atrás, um homem que se atrasa demais para a sessão ou se adianta para a próxima. Mais de dez policiais enviados por Cecil Borer não se atrasam. Desconhecendo o ponto preciso onde Marighella se acha, bloqueiam as saídas e adentram no salão. Não admitirão escapadas cinematográficas. Sabem que crianças dominam o ambiente. (…)Simulado o defeito na projeção, as luzes se acendem, e os caçadores vislumbram a caça.
De pé, por trás e pela direita de Marighella, sentado na cadeira, um policial ordena-lhe que o acompanhe. Outro cerca-o por trás, pela esquerda. À sua frente, o terceiro mostra a carteira com as iniciais do Dops. Tudo num instante. O quarto, ao lado do que dá a carteirada, agacha-se e aponta o revólver calibre 38. Marighella pensa que vai morrer e grita: “Matem, bandidos! Abaixo a ditadura militar fascista! Viva a democracia! Viva o Partido Comunista!”

Não terminou, quando o agente dispara à queima-roupa. Ferido no peito, Marighella equilibra o corpo na perna esquerda e, com a direita, acerta um golpe que joga longe a arma. Outro chute destrói uma cadeira. Seus sapatos voam longe. Os policiais o chutam e esmurram, ele não cai e retribui as agressões. Um gosto adocicado tempera sua boca. É o sangue que o empapa. No rosto, o sangue turva a visão, e Marighella tem a impressão de que enfrenta ao menos sete. São oito, somam testemunhas. Não consegue ver a face dos tiras e nunca poderá identificá-los.
O tiro foi um, mas o sangue escorre por três perfurações. A bala entrou no tórax, saiu pela axila e se alojou no braço esquerdo. Marighella continua a lutar. Como um leão, compara um dos contendores que tentam imobilizá-lo. Outro berra, encolerizado:
“Vermelho! Vermelho!”

Com a altercação, o público se vira, ouve o tiro e enxerga o clarão que ele acende. Em pânico, as crianças choram. Elisabeth, Celso e Kátia se abaixam e engatinham. Dominado, com a camisa desabotoada e já sem o paletó ensanguentado, Marighella é puxado pelos policiais para fora do cinema. O fotógrafo do Correio da Manhã que passeia com a filha empunha a câmera, mas os policiais o ameaçam e impedem de registrar a cena. Corajoso, logra fazer algumas chapas, tremidas. Valdelice é presa.

Quase na calçada, Marighella reconhece a camionete do Dops e decide: “Não vou entrar no tintureiro”. É a expressão popular para os veículos da polícia destinados à condução de presos. A resistência não tem fim. Empurrado, apoia as pernas no teto da viatura e não entra. Leva mais pontapés e socos. Já são catorze homens contra um. Ao cair, pisoteiam-no, e o corpo avermelha a calçada. Transeuntes protestam. Os passageiros de um lotação os imitam e são corridos por policiais que surgem de todos os cantos. O secundarista Alcides Raphael, que assistirá à sessão das seis horas, estima em cinco minutos o tempo para o homem que luta sozinho ser embarcado — o Correio da Manhã cronometrou dez minutos de espancamento.

Marighella só para quando lhe acertam uma pancada na cabeça e ele desmaia.”

RIO DE JANEIRO, RJ, BRASIL, 31-07-1964: Carlos Marighella, deputado federal, líder comunista e fundador da Ação Libertadora Nacional, que morreu assassinado em emboscada preparada pelo DEOPS (Departamento de Ordem Política e Social) no dia 04 de novembro de 1967. (Foto: Braz Bezerre/Agência Jornal do Brasil)

Conheça Carlos Marighella:

“Marighella foi um dos sete filhos de uma família pobre de Salvador. Seu pai foi o operário Augusto Marighella, imigrante italiano da região da Emília, e sua mãe foi a baiana Maria Rita do Nascimento, negra e filha de escravos africanos trazidos do Sudão (negros hauçás). Nasceu na capital baiana, residindo na Rua do Desterro 9, Baixa do Sapateiro, onde concluiu o seu curso primário e o secundário.

Em 1934 abandonou o curso de Engenharia Civil da Escola Politécnica da Bahia para ingressar no PCB. Tornou-se então, militante profissional do partido e se mudou para o Rio de Janeiro, trabalhando na reorganização do PCB.

Conheceu a prisão pela primeira vez em 1932, após escrever um poema contendo críticas ao interventor Juracy Magalhães. Libertado, prosseguiria na militância política, interrompendo os estudos universitários no terceiro ano, em 1934, quando deslocou-se para o Rio de Janeiro.

Em 1º de maio de 1936, durante a ditadura na Era Vargas, foi preso por subversão e torturado pela polícia de Filinto Müller. Permaneceu encarcerado por um ano. Foi solto pela “macedada” (nome da medida que libertou os presos políticos sem condenação), e ao sair da prisão entrou para a clandestinidade, sendo recapturado em 1939. Novamente foi torturado e ficou na prisão até 1945, quando foi beneficiado com a anistia do processo de redemocratização do país.

Elegeu-se deputado federal constituinte pelo PCB baiano em 1946. Nesse período teve um breve relacionamento com Elza Sento Sé, operária da Light, com quem teve um filho, Carlos Augusto Marighella, nascido a 22 de maio de 1948 no Rio de Janeiro. Neste mesmo ano Marighella voltou a perder o mandato, em virtude da nova proscrição do partido. Voltou para a clandestinidade e ocupou diversos cargos na direção partidária. Convidado pelo Comitê Central, passou os anos de 1953 e 1954 na China, a fim de conhecer de perto a recente Revolução Chinesa. Em maio de 1964, após o golpe militar, foi baleado e preso por agentes do DOPS dentro de um cinema, no Rio. Libertado em 1965 por decisão judicial, no ano seguinte optou pela luta armada contra a ditadura, escrevendo A Crise Brasileira. Em dezembro de 1966, renunciou à Comissão Executiva Nacional do PCB. Em agosto de 1967, participou da I Conferência da OLAS (Organização Latino-Americana de Solidariedade), realizada em Havana, Cuba, a despeito da orientação contrária do PCB. Aproveitando a estada em Havana, redigiu Algumas questões sobre a guerrilha no Brasil, dedicado à memória do guerrilheiro Che Guevara e tornado público pelo Jornal do Brasil em 5 de setembro de 1968. Foi expulso do partido em 1967 e em fevereiro de 1968 fundou o grupo armado Ação Libertadora Nacional. Em setembro de 1969, a ALN participou do sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, em uma ação conjunta com o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8).

Com o recrudescimento do regime militar, os órgãos de repressão concentraram esforços em sua captura. Na noite de 4 de novembro de 1969, Marighella foi surpreendido por uma emboscada na alameda Casa Branca, na capital paulista. Ele foi morto a tiros por agentes do DOPS, em uma ação coordenada pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury. A ALN continuou em atividade até o ano de 1974. O sucessor de Marighella no comando da ALN foi Joaquim Câmara Ferreira, que também foi morto por Fleury no ano seguinte. Os militantes mais atuantes em São Paulo eram Yuri Xavier Ferreira, Ana Maria Nacinovic Correa, Marco Antonio Valmont e Gian Mercer que continuaram fazendo panfletagem contra a ditadura até meados de 1972, quando também foram mortos numa emboscada no bairro da Mooca, ao saírem do restaurante Varela. Dezoito de seus militantes foram mortos e cinco foram considerados desaparecidos.”

Clip dos Racionais ‘Mil Faces de Um Homem Leal”
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