Argentina

Julio López, Luciano Arruga e Santiago Maldonado: os “desaparecidos” da democracia argentina

Pode parecer até teoria da conspiração, mas vindo daqueles que brigam pelo poder no Estado torna-se aparentemente “aceitável”, com todas as aspas do mundo, o que vamos contextualizar no decorrer desta matéria.

Primeiro

Em 18 de setembro de 2006 no governo de Néstor Kirchner (2003 a 2007), governo esse de ideário peronista e social-democrata, o pedreiro Jorge Julio López, ex-militante peronista, na época com 77 anos, saiu de sua casa para o Palácio Municipal da cidade de La Plata, capital da província de Buenos Aires, onde seria testemunha de acusação no julgamento contra o ex-comissário de polícia e repressor, Miguel Osvaldo Etchecolatz pelos crimes de tortura e desaparições durante a última ditadura militar argentina (1976-1983).

Logo no início dessa ditadura civil-militar, em 1976, sob o comando do general Miguel Etchecolatz, López foi sequestrado e torturado por militares que o mantiveram preso em um quartel clandestino. Cinco meses depois, quando o militar Jorge Rafael Videla assumiu o cargo, López foi liberado e continuou atuando em frentes da militância política.

Em 2006, cerca de trinta anos depois, o Congresso e o Supremo Tribunal decidiram pela anulação das leis de impunidade, e López declarou-se vítima e testemunha no julgamento dos crimes contra a humanidade cometidos pelo ditador Miguel Etchecolatz. Mas foi em 18 de setembro desse mesmo ano, um dia antes da condenação de Etchecolatz pelas atrocidades cometidas na época ditadura, que Jorge Julio López desapareceu e nunca mais foi visto.

Depois do seu desaparecimento,a tarefa de seus familiares e advogados foi tornar o fato visível. Ainda que, em um primeiro momento, o governo de Néstor Kirchner tenha desconhecido suas implicações, com o passar dos dias e a irrefutabilidade das evidências, o governo passou a fazer “parte da causa”.
“Sentimos todos essa dor. Esperamos resolver um fato que nos afeta e machuca profundamente. E quero dizer aqui, porque isso simboliza a unidade e a concepção de solidariedade de todo o povo argentino. Esperamos que, como Estado, possamos devolver o cidadão López a seu lar para que desapareçam definitivamente da Argentina esses fantasmas que tantos danos nos causaram”, assinalou Néstor Kirchner, no Colégio Militar da Nação, em dezembro de 2006.

Segundo

Luciano Nahuel Arruga nascido em Buenos Aires em 29 de fevereiro de 1992 foi um adolescente argentino que “desapareceu” no dia 31 de janeiro de 2009 depois de ser detido pela polícia bonaerense (polícia de Buenos Aires) na província de Lomas del Mirador. No momento do seu desaparecimento, Luciano tinha 16 anos. Seus restos mortais foram encontrados enterrados como indigente em um cemitério na argentina em 17 de outubro de 2017, mas sua morte é atestada desde 1 de fevereiro de 2009. Em 2015, a justiça condenou à dez anos de prisão o policial Diego Torales, por torturas contra Luciano Arruga, cometidas no destacamento policial de Lomas del Mirador quatro meses antes do seu desaparecimento.

Terceiro

 

No dia 1 de agosto de 2016, o jovem de 28 anos anarquista e tatuador, Santiago Maldonado, desapareceu após ter sido levado pela polícia durante um protesto pela libertação de Jones Huala, líder Mapuche, em um território indígena, onde ocupavam uma propriedade do grupo Benetton, na região de Cushamen, na província de Chubut, região da patagônia, na Argentina. Os Mapuches são uma nação indígena que resistiu três séculos à invasão espanhola e só foi subjugada com o nascimento dos estados do Chile e da Argentina

Nascido na província de Buenos Aires, o jovem Santiago se aproximou muito da luta que os Mapuches travavam no país, mas esbarrou no governo liberal de Maurício Macri, que iniciou o mandato em dezembro de 2015, quando já se pode notar com clareza, no debate público, sua persistente política de negacionismo ou relativismo dos crimes cometidos pela ditadura cívico-militar encerrada em 1985.

No decorrer do desaparecimento de Santiago, inúmeras organizações e entidades na Argentina começaram a denunciar o fato, sendo uma das principais a “Avós da Praça de Maio”, uma organização de direitos humanos que tem como finalidade localizar e restituir todas as crianças sequestradas ou desaparecidas pela ditadura civil-militar na argentina (1975-1983) e devolvê-las às suas legítimas famílias. “Que a comunidade argentina saiba que temos um desaparecido na democracia do senhor Macri”, alertou Estela de Carlotto, histórica militante de direitos humanos e presidenta das Avós da Praça de Maio.

O posicionamento do governo inicialmente veio através da Ministra da Segurança Nacional da Argentina, Patricia Bullrich, que afirmou que a família de Santiago demorou para dar queixa do desaparecimento, ainda que as provas indiquem que a denúncia foi realizada no mesmo dia. Depois, culpou-os de não colaborar com as investigações, o que o irmão de Santiago, Sergio Maldonado, classificou de “cinismo”.

Após uma semana do desaparecimento, o governo assumiu a responsabilidade sobre o caso e anunciou que pagaria 500 mil pesos, algo em torno de 29 mil dólares, por informações para encontrar o jovem.

De acordo com um áudio da equipe de advogados da família, enviado pelo coletivo El Tambo, seu corpo foi encontrado na terça-feira, dia 17 de outubro, na altura da casa de vigilância da comunidade Pu lof Cushamen boiando de boca para baixo, próximo às ramas do rio Chubut, mas sem estar emaranhado. Esse mesmo local já havia sido rastreado três vezes anteriormente. A família e advogados protegeram a cena das 13:30h às 21h para garantir que não houvesse qualquer alteração. A retirada do corpo foi feita sob direção de um forense da equipe privada da família, e logo foi possível constatar que se tratava de um corpo humano, mas ainda não se pode afirmar com certeza de que se trata de Santiago.

No dia 20 de outubro, a família publicou um comunicado confirmando ser Santiago Maldonado e pedindo justiça, não apenas em relação a quem possa ter tirado a vida do jovem, mas também àqueles que se omitiram ou prejudicaram de algum modo a busca e a investigação. Vale lembrar que o Governo Macri negou a ajuda oferecida por especialistas da ONU internacionalmente experientes em casos de desaparecimento.

Onde queremos chegar

Nesse domingo,22 de outubro de 2017, haverá eleições para o legislativo em toda a Argentina. No dia 13 de agosto foram realizadas as primárias, que são uma espécie de “pesquisa” para as próximas eleições, e elas representaram uma passagem política considerada chave, não apenas para o “macrismo”, como também para o chamado “peronismo”, que se esfacelou durante o governo da ex-presidente Cristina Kirchner.

Na manhã da terça-feira, 17 de outubro, três juízes pediram a prisão do deputado e ex-ministro kirchnerista Julio De Vido por fraudes ao Estado. O pedido acontece cinco dias antes das eleições legislativas que irão marcar o retorno político ao Senado da ex-presidente Cristina Fernández de Kirchner.

Horas depois desse anúncio, um corpo foi encontrado 78 dias depois do desaparecimento do jovem Santiago. A busca estava sendo feita pela Prefeitura Naval com cães especializados em conjunto com uma equipe de advogados e pessoal ligado à família Maldonado.

Em coletiva transmitida por quase toda a mídia nacional argentina, na noite de quarta-feira (18), o irmão de Santiago, Sérgio Maldonado, disse acreditar que o corpo fora “plantado” no local. As razões: o cadáver foi localizado 300 metros rio acima – ou seja, contra a corrente – do lugar onde Santiago foi visto sendo levado pela polícia. As roupas e o documento de identidade se encontravam junto ao corpo. Um adendo que vale ser dito nisso tudo é que um corpo quando afogado por muitos dias dentro d’água incha de tal forma que volta a superfície, e ao que tudo indica ele não apresentava as características relativas ao tempo que possivelmente ficou no fundo do rio.

O Clarín, maior jornal da Argentina, que faz o papel de porta voz dos grandes poderes, vem insistindo na mentira descarada de que Santiago se afogou e estava no Rio Chubut desde seu desaparecimento, ou seja, durante 78 dias. Mas o estado em que o corpo foi encontrado desmente a tentativa dessa mídia criminosa de garantir a impunidade para seus protegidos. De acordo com Enrique Prueger, especialista em criminalística, se o corpo estivesse todo esse tempo imerso, seria impossível ter tirado suas impressões digitais. O corpo, assim, não poderia estar no rio por mais de 20 dias.

Ainda há a hipótese que levantada pela comunidade Mapuche que os seguranças das terras da transnacional Benetton foram os agentes responsáveis no desaparecimento do corpo do Jovem Santiago.

Bom, há menos de três dias das eleições legislativas parece que há um certo paralelo entre todos esses fatos, fatos que estão sendo usados politicamente para beneficiar uma corrente partidária na Argentina. Onze anos depois do sumiço do pedreiro Julio López no Governo Kirchner e alguns anos depois do sumiço do jovem Luciano Arruga, em que o Estado teoricamente lavou suas mãos através de seus discursos e formas de agir, acontece o desaparecimento forçado seguido de morte de Santiago Maldonado no governo liberal de Macri. Ambos governos “democráticos”, ambos governos que agora têm o peso na sua história, nas suas supostas democracias, de pessoas “desaparecidas” através dos agentes do Estado.

Apesar do trabalho argentino de tentativa de reparação das atrocidades da ditadura, o sumiço e assassinato de combativos lutadores sociais segue na agenda da segurança pública. Continua sendo o modo de operação do Estado. Sejam governos da esquerda representativa ou de direita reacionária, sejam empresários sedentos por lucro, as ferramentas e o uso da coerção para garantia dos poderes instituídos são os mesmos.

As ruas argentinas ficaram inflamadas de dor e repúdio pelo aparecimento do corpo que até então era apontado como de Santiago, convenientemente descoberto poucos dias antes das eleições na Argentina, eleições essas que, segundo os números, colocam em vantagem a corrente liberal de Macri. E se analisarmos bem os fatos até aqui apresentados, isso pode sim estar servindo de pauta para enfraquecer um lado dessas eleições.

Santiago Maldonado era apenas um jovem cheio de sonhos como muitos de nós, mas o sua indignação, sua luta e seu amor permanecem em nossos corações contra aqueles que tomam as cadeiras de poder e dizimam o destino dos povos, condenando-os às suas vontades vaidosas para manter seus privilégios seculares.

Essa matéria foi feita numa parceria MIC e R.I.A.

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R.I.A
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