Rio de Janeiro

Estado forja “zonas de guerra” para justificar matança de pobres no Rio

Beco da Síria, na favela do Jacarezinho, lembrando imagens do país que dá nome ao beco

Uma semana após o massacre levado a cabo pelas polícias civil e militar que deixou oito pessoas mortas na favela do Jacarezinho, moradores começaram e retomar suas vidas. Nas ruas de acesso à favela já pode ser visto o movimento frenético, comum do Jacarezinho sete dias por semana. No acesso à estação de trem, camelôs voltam à rotina, carros e motos circulam normalmente e o deserto que havia entre a Avenida Dom Helder Câmara e o Largo dos Tubas pouco a pouco vai dando lugar à feira livre de todos os dias.

No Beco da Síria, uma das partes mais afetadas pelos tiroteios, marcas de disparos de todos os calibres infestam os muros e fachadas das casas. Ainda muito assustados, comerciantes disseram à reportagem de AND que o Jacarezinho nunca havia sido atacado pelo Estado como nos dez dias em que policiais da CORE levaram a cabo consecutivas operações para vingar a morte do policial Bruno Guimarães Buhler, de 36 anos, morto dias antes em um suposto confronto com traficantes.

Eu moro no Jacarezinho desde os 15 anos, quando minha família veio de Minas para o Rio. Hoje eu tenho 72 e nunca pensei que, depois de tanto tempo nesse lugar, fosse viver dessa forma, com medo, receio de tomar um tiro a qualquer momento. No primeiro dia de operação aqui, eu e minhas clientes ficamos mais de uma hora no chão, de mãos dadas, pedindo misericórdia para deus. Depois disso, eu não abri mais meu salão. Não queria correr o risco de abrir, atrair as pessoas e alguém se machucar dentro do salão — conta Dona Geralda Telles.

Perto dali, fica a Escola Estadual Clóvis Monteiro, uma das mais antigas da região. Mesmo protegida por muros e por uma vegetação densa, a escola tem marcas de tiros até mesmo dentro das salas de aula.

Não sei qual a pressão maior: da rotina de violência nesse lugar, ou da secretaria de educação que sempre exige explicações para o fechamento da unidade e cobra com rigor a reposição das aulas. Claro, eles estão nos seus gabinetes e não enxergam o terror que essas crianças vivem aqui. Nos dias de tiroteio, eu tive que fechar a escola porque quem tutela pela segurança dos alunos sou eu. Nós tentamos manter a rotina de aulas, mas é complicado, pois de uma hora para outra, começam os tiros e ninguém mais consegue chegar à escola ou prestar atenção na aula. O terror produzido pelo Estado aqui é veneno para a cabeça desses adolescentes que, muitas vezes, têm o desejo de estudar, mas acabam impedidos pela violência no território — explica a diretora da unidade, Andréia Queiroz.

Grafiti feito na entrada da escola onde a menina Maria Eduarda estudava

A 15 quilômetros dali, em Fazenda Botafogo, fica a Escola Municipal Daniel Piza, onde estudava a menina Maria Eduarda Alves da Conceição, de 13 anos. Ela foi baleada por policiais dentro da escola e não resistiu aos ferimentos. O caso aconteceu em março desse ano e gerou grande comoção popular. Na Fazenda Botafogo, onde fica a escola, um grafitti foi feito no muro do colégio em homenagem a Duda, como era conhecida Maria Eduarda. Segundo Buba Aguiar, de 26 anos, integrante do Coletivo Fala Akari, as operações nas favelas da região continuam acontecendo.

Nós somos pobres e o Estado não liga para nós. No caso da morte da Duda, as imagens mostram que os policiais sabiam que ali era uma escola e que as crianças estavam no pátio brincando. Mesmo assim, continuaram atirando a esmo na direção do colégio. Aqui eles agem assim: atirando para todos os lados, agredindo as pessoas, invadindo casas e tocando o terror. Agora estão perseguindo lideranças comunitárias e eu sou uma delas. Já entraram na minha casa, roubaram documentos do Coletivo, fazem ameaças e, muitas vezes, nós tivemos que sair de Acari para que nada nos acontecesse. Tudo isso é feito pelo 41º BPM [antigo 9º BPM], que já tem no seu “currículo” a Chacina de Acari e de Vigário Geral — lembra Buba Aguiar.

Cenário de destruição deixado pelo Estado na Rua 2, Nova Brasília, no Complexo do Alemão

No Complexo do Alemão, uma das maiores favelas da cidade, o quadro não é diferente. Na Rua 2, na localidade Nova Brasília, policiais tomaram casas de moradores e as transformaram em Bunkers. No local, o colorido das paredes das casas contrasta com as centenas de marcas de tiros. Desde 2010, quando o Estado iniciou o processo de militarização dos Complexos da Penha e do Alemão, são poucos os dias em que moradores não suas rotinas interrompidas por sons de tiros.

Eles [o Estado] disseram que a UPP ia mudar nossas vidas e mudou mesmo. Transformou nosso dia-a-dia em um inferno. A gente sai para a rua rezando para não tomar um tiro ou não esbarrar com algum policial, pois eles tratam a gente que nem lixo. Agridem, esculacham, xingam e ninguém escapa. Até mulheres, idosos e crianças sofrem na mão desses covardes. Fizeram esse teleférico, gastaram milhões e ele hoje está fechado. Emperequetaram a favela toda e hoje não temos mais nada, só violência contra os moradores. Tem lugares do Complexo que viraram áreas fantasmas, onde não mora ninguém, porque o povo não está aguentando e muitos acabam deixando suas casas — conta o tatuador Vinícius Andrade, de 31 anos.

No Jacarezinho, bandeira do Brasil foi desfigurada pelas marcas de tiros de fuzil

A guerra reacionária do Estado contra o povo, a cada dia é incrementada com mais tropas, armas e tecnologias militares. Somente esse ano, mais de 3 mil pessoas se feriram em supostos confrontos entre traficantes varejistas de drogas e policiais. Os cinco primeiros meses desse ano já registram um aumento de 16,8% no número de vítimas em comparação ao mesmo período do ano passado. O número de vítimas fatais também subiu assustadoramente, e já ultrapassou 521 casos em cinco meses. Um aumento de 58,9% em comparação ao mesmo período de 2016.

Ao povo resta se organizar e lutar contra esse genocídio em curso, pois somente a rebelião popular será capaz de frear a ação do Estado em conluio com as classes dominantes para militarizar favelas e bairros pobres, não importando quantas vidas terão que ser sacrificadas para tanto.

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