Brasil

Esqueça a Globo: A verdade sobre a repressão em Brasília

Por Rodrigo Duarte Baptista

No memorável dia 24 de Maio, brasileiros e brasileiras de todos os estados do país inundaram às ruas de Brasília na tentativa de lutar para expulsar Michel Temer da presidência – aquele que representa hoje, a primeira instância materializada de todos os retrocessos neoliberais. As motivações da manifestação foram heterogêneas: desde ‘’Diretas Já’’ e ‘’Fora Temer’’ às pautas mais radicais e libertárias, como entoavam os blocos independentes: ‘’É barricada, greve geral, ação direta que derruba o capital!’’.

Mais de 500 ônibus vindos das mais variadas cidades do Brasil foram chegando ao longo da madrugada. Somente do estado do Rio de Janeiro saíram 70 veículos. Parte deles foi revistada pela Polícia Militar, logo na entrada da capital federal. Após isso, os ônibus se dirigiram para os entornos do Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha. Estudantes, professores, sindicalistas, trabalhadores do campo e da cidade… Somados todos os manifestantes, totalizavam-se 150.000 pessoas, aproximadamente. Os jornais mais otimistas calculavam 200.000 brasileiros.

A concentração do ato, que seguiria em direção à Esplanada dos Ministérios, teve início às 8:00h da manhã. Diversas centrais sindicais contavam com o apoio de grandes caminhões de som para que os líderes sindicais e partidários fizessem suas falas e críticas aos governantes brasileiros. A partir do meio-dia, os primeiros carros de som começaram a se dirigir para a avenida e a marcha seguiu logo atrás.

No meio do caminho, havia uma ponte que se encontrava ocupada por policias militares. Eles formavam um cordão de isolamento e para que os manifestantes passassem, as mochilas e bolsas foram revistadas, bem como as bandeiras deveriam ser enroladas e o suporte de madeira ou PVC deveria ser deixado para trás. Alegando ser uma medida de segurança, logo mais, o povo descobriu que era uma medida de brutalidade e covardia, para que o aparelho repressivo do Estado pudesse, mais uma vez, massacrar o povo brasileiro negando-lhe o constitucional direito de resistir.

Quando três caminhões haviam atravessado as barreiras policiais, alguns manifestantes não aceitaram deixar para trás seus escudos e bandeiras e, então, aumentou-se a tensão entre o povo e os policiais. Estes tentaram impedir a passagem daqueles, e foi quando começou a resistência popular. Como os trabalhadores estavam em maior número, os policiais recuaram e ameaçaram disparar com munição letal contra o povo, enquanto corriam na direção contrária.

Trabalhador com escudo seguindo em direção à Esplanada dos Ministérios

Esses Trabalhadores ligados aos sindicatos, movimentos sociais e partidos mais combativos da conjuntura nacional atual, como, por exemplo, uma ala do PSTU e PCR, LCP, Liga Operária, Unidade Vermelha e até mesmo os policiais penais, mantiveram-se lado a lado dos blocos autonomistas e anarquistas – aqueles que a Grande Mídia chama de ‘’Black Bloc’’. Então, esse grupo heterogêneo de manifestantes foi o primeiros a não aceitar a desnecessária repressão do Estado e resistir a tal.

Zé Maria rebatendo a argumentação de Jandira.

Após o primeiro episódio de violência policial, o povo seguiu em direção ao Congresso Nacional. Houve um conflito entre o discurso de Jandira Feghali (PCdoB) e de Zé Maria (dirigente do PSTU). Enquanto a deputada falava no microfone do seu caminhão de som que ‘’é preciso pedir apoio à Polícia Militar para tirar do ato essesvândalos que estão tentando atrapalhar uma manifestação pacífica’’, no caminhão que vinha logo atrás, em uma fala mais radicalizada, Zé Maria dizia: ‘’companheira, não é bem assim não, os manifestantes foram impedidos de passar pela polícia militar e se defenderam dos abusos de poder da polícia!’’.

O INÍCIO DA ESCALADA REPRESSIVA CONTRA O POVO

Policiais militares impedindo que o ato seguisse até o congresso

Após essas divergências entre os líderes partidários, as bases dos sindicatos deram início a um processo de desobediência com relação às ordens que partiam dos carros de som. Isso porque nem mesmo entre as lideranças partidárias havia uma opinião homogênea. Ora os setores mais ligados às classes dominantes capitalistas ordenavam que as bases recuassem e não tentassem avançar em direção ao Congresso Nacional, ora as bases eram ordenadas a avançar e suportar a repressão policial para que se chegasse, efetivamente, ao objetivo posto. A única postura contínua era por parte do aparelho de repressão estatal presente na Esplanada: reprimir, reprimir e reprimir.

Frente ao avanço das tropas e da repressão desproporcional que sofria o povo, as direções mais recuadas perderam o controle sobre as bases dos partidos e sindicatos. O povo tentou romper o bloqueio dos homens da Polícia Militar e da ROTAM (Rondas Ostensivas Táticas Metropolitanas), estes também aparelhados com a cavalaria. Naturalmente, o aparelho repressivo do Estado se encontrava melhor preparado e equipado do que os trabalhadores lá presentes.

Senhora se protegendo do gás lacrimogêneo com a bandeira de um sindicato.

Polícia Militar disparou incontáveis bombas de gás lacrimogêneo, na tentativa de impedir a ocupação do congresso nacional. Crianças, idosos, menores de idade; ninguém foi poupado da barbárie. Houve dificuldade de romper as barreiras policiais, bem como os discursos recuados da maioria das direções sindicais lá presentes.

Banheiros químicos impedindo a cavalaria de avançar.

Banheiros químicos foram utilizados como barricada para evitar o avanço da cavalaria contra o povo. Visto a dificuldade em atravessar a barreira policial para chegar ao Congresso, então as ações diretas se voltaram para os ministérios no momento em que Rodrigo Maia pediu apoio da Força Nacional para reprimir ainda mais intensamente os manifestantes.

Vidraça do Ministério da Agricultura.

O povo revoltado quebrou as vidraças de alguns ministérios e pichou nas paredes a sua indignação, frente à constante repressão policial que acontecia. No momento das ações diretas, um grupo de policiais militares, que se encontrava na lateral do Ministério da Agricultura, sacou suas pistolas e disparou dezenas de vezes na direção dos manifestantes. Um desses disparos feriu um senhor, de aproximadamente sessenta anos, que se encontrava próximo das vidraças defendidas – embora não estivesse ajudando na ação direta. O tiro acertou na porção inferior da clavícula direita, próximo ao ápice do pulmão direito.

“Vândalo” ajudando homem ferido pela PM, até o socorro chegar.

Bombeiros prestando socorro ao senhor baleado pela PM.

Momentos anteriores ao socorro chegar, homens da Força Nacional foram encaminhados ao local do incêndio para reprimir todos os manifestantes, inclusive os que gritavam por socorro, em nome do homem baleado. Para isso, foi preciso que o povo fizesse uma barricada no meio da avenida principal da Esplanada, impedindo o avanço brutal das forças de repressão.

Barricada feita para estancar o avanço da Força Nacional.

Frente à tamanha violência, o acúmulo de revolta popular desencadeou o fogo no Ministério da Agricultura – setor do governo que representa hoje o avanço do agronegócio e o genocídio dos povos indígenas e camponeses pobres. As bases dos sindicatos recuados se uniram aos manifestantes da ação direta e deram as mãos para impedir que os caminhões de som batessem em retirada. Eles entenderam que se houvesse essa retirada, as forças repressivas do Estado agiriam com maior truculência. No momento final, Michel Temer convocou as forças armadas às ruas da Esplanada e, não menos do que a Polícia Militar, os militares do Exército Brasileiro se mostraram despreparados e truculentos para lidar com o povo.

Foram mais de cinco horas de confronto entre policiais fortemente armados e manifestantes quase sem possibilidades de se defender. A geografia plana e larga das avenidas de Brasília impede a aplicação de táticas de autodefesa, comumente utilizadas em áreas urbanas mais estreitas. Fato que resultou na barbárie institucionalizada: 49 feridos, dentre eles um aposentado (que será operado e respira por aparelhos) baleado no rosto por um tiro de munição letal disparado por um soldado da PM, outro homem baleado na clavícula. 8 detidos de forma arbitrária. E, por fim, a lenda de um Brasil democrático começa a ruir aos olhos dos reformistas e oportunistas.

Helicóptero da PM sobrevoou e atacou com bombas os manifestantes que já se retiravam do local.

A Grande Mídia e os partidos oportunistas insistem na afirmação de que os adeptos da tática Black Bloc são infiltrados da direita política para atrapalhar os seus protestos pacíficos. Posto que todo manifestante da ação direta seja um burguês infiltrado e, por isso, merece ser punido, então a figura do outro é desumanizada. Uma vez sem humanidade, todo e qualquer tipo de tratamento bárbaro é aceito pela sociedade. Seja a repressão do Estado, seja a repressão dos seguranças das centrais sindicais. Toda a barbárie legitimada pela esquerda reformista mostra a quem realmente, em última instância, servem esses partidos: ao capital!

A violência legitimada nos discursos dos partidos oportunistas sobre os ‘’vândalos’’, que são, na verdade, trabalhadores e estudantes que não operam na lógica pacifista de protesto, desvela uma forma falida de construir política. Aqueles setores combativos que não se pode controlar e inserir na lógica reformista e contrarrevolucionária deve-se, então, criminalizar. O Black Bloc em Brasília foi reivindicado, acima de tudo, por trabalhadores e estudantes que apostam em uma forma de protestar historicamente relacionada aos movimentos sociais dos trabalhadores. Se a esquerda reformista nega essa relação entre as massas e a ação direta, fica claro que essa tentativa de controle sobre os indivíduos serve não aos trabalhadores, mas aos donos do capital – esses mesmo que financiam suas campanhas eleitorais.

Momento em que um “Black Bloc” ajuda um senhor cadeirante da CUT a passar leite de magnésio.

Para mais fotografias deste dia, acesse no Facebook a página da Mídia Independente Coletiva-MIC e o álbum:
https://www.facebook.com/media/set/?set=a.1340247096082827.1073741838.100002926479954&type=1&l=caf0d3fb1a

Rodrigo Duarte Baptista cursou Filosofia e está se graduando em Direito também na Universidade Federal do Rio de Janeiro, desde 2016 atua como jornalista independente.

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