Feminismo

Empatia pra macho

Me veio o pensamento de que nós mulheres deveríamos começar a ter empatia com os homens para atacar de frente o machismo. Eu mesma me mandei me foder nessa – me foder do tipo ruim. Rolou o básico: para! Você está louca. Como assim, empatia com macho estuprador assassino? Louca. Aí, percebi como eu estava cansada de ser chamada de louca – inclusive por mim –, de chamar as outras mulheres de loucas, de ter em volta da gente esse grande eco eterno de sua louca que a gente ouve a vida toda. Louca por quê? Houve silêncio e mudei de assunto.

Isso ficou rebatendo na minha cabeça um tempo. Empatia? Mas como? E me apareceram desenhados no cérebro o símbolo de diferente e a palavra compaixão. Eureca. Ter empatia não tem nada a ver com compaixão. Não, não temos que ter pena de sujeito macho para ter empatia com ele. Não temos que ter qualquer simpatia por ele para entendê-lo, e entendê-lo também não precisa terminar em condescendência. A empatia, antes de tudo, nos faz conhecer o outro. Isso, no mundo deles, é até arma de guerra, a capacidade empática deve ser o primeiro requisito para seleção de agentes infiltrados e P2 da vida. Através da empatia, nosso coração pode – ou não – se encher por outra pessoa, e o nome disso é amor, não empatia. Com ela, a gente – por ser também gente – é capaz de reconhecer o coração do outro, seja quem for. E se o amor vai entrar nessa cena ou não é ele quem sabe, ele é supremo e soberano. Acho que se a gente se colocar no lugar do macho, tentar sentir como ele cresceu, como ele é, o que ele sente, a gente pode descobrir quais são as bases mais arraigadas que sustentam a cultura do estupro. Podemos juntar informações e mapear todo os alicerces do castelo de sangue e esperma que eles tanto protegem. Com uma pitada de criatividade – que a gente tem e sobra –, a implosão do castelo pode já não parecer tão impossível.

Alguns exercícios empáticos que fiz durante a vida – sem saber que estava fazendo –, me ajudam hoje a entender um pouco mais quem são eles. De um lado, bem encima do castelo, existem os merdas, os machos que resguardam sua fortaleza com pirus bélicos em riste. No linguajar deles mesmos, eles seriam o inimigo, essa ideia abstrata e infantilizada. Para mim, eles são os que estão por aí rondando em sua alta segurança procurando uma menina de 14 anos para arrombar, além de todo os outros que fingem que isso não acontece. De outro, na ponta mais para cá, os caras legais existem. Nem sempre eles podem/conseguem ser eles legais do jeito que são, muito menos viver em seu próprio normal, mas eles existem. Isso não quer dizer que não tenham traços machistas, até porque neles isso resulta em direitos inquestionáveis. Mesmo assim, venho vendo alguns homens com tanta vergonha que andam até abrindo mão de privilégios. Desses seria legal, caso queiram aniquilar o castelo também, receber relatos do que é viver como homem, quais são as liberdades, os receios, os gozos, as armaduras. Seria uma ótima e inestimável fonte de dados para nosso mapa de alicerces.

Para puxar o assunto, me vem a cabeça essa espécie de tabu do tamanho do piru de alguém. Me dá muita vergonha alheia ouvir machos se vangloriando de tamanho de piru. E isso muitas vezes mentindo na cara dura de forma quase desesperada: eu tenho que ser o cara, eu tenho que ser o cara. Todo esse circo antiquado de supostos melhores pirus, ainda por cima, parece ser coisa exclusiva de macho para macho. Tipo um marisa masculino misturado com uma dança do acasalamento esquizofrênica. É bem patético. Não só o show de pavões no deserto, mas também o fato de que nós mulheres, acredito, estamos pouco se fodendo para tamanho de piru quando queremos transar com um cara. Se me dizem que um cara tem piru pequeno e eu estiver interessada nele é foda-se, eu quero o cara, e se ele me quiser é mais uma experiência. E nessas minhas experiências – acho que elas conferem uma amostragem válida –, identifiquei três tipos básicos de piru. Tem uns muito grandes, incômodos, que não cabem e parecem ser os preferidos dos machos de plantão. Tem a grande maioria, que é gostoso e do tamanho certo – cada um do seu jeito. E tem uns menores, que no conjunto da obra são ótimos do mesmo jeito. Digo isso para que, se um macho estiver lendo, ele abandone essa insanidade e passe a viver melhor – o que é um primeiro passinho na direção de não sermos assassinadas.

Voltando à empatia, fico imaginando o terror que deve ser essa reafirmação diária da suposta detenção de um pau grande, essa paranoia entranhada na cabeça de uma pessoa desde a infância. O cara deve se sentir sempre perseguido, checando se alguém está olhando para o seu piru, se alguém percebeu que não é tão grande assim, o que os amigos vão dizer agora que viram, se não é melhor comprar logo aquela bombinha da internet. Que pavor. Se uma amiga me diz (inédito na minha vida) que seu clitóris duro – sim, fica duro – tem 3 centímetros, minha cara vai ser (?). Ou digo tá, ou (curiosa) pergunto como ela mediu (conta aí!). Para o homem, esses 3 centímetros são questão vida ou morte social. É muito louco isso, muito.

Acho que a parte do espaço sentimental zero – chorou é mulherzinha – vem arrefecendo aos poucos na vida dos homens. Mas não posso dizer que sim, isso só eles mesmos podem confirmar. Se eu prendo um choro em um filme que seja, eu fico mal depois, me sinto estranha, meio com raiva. E eventualmente acabo chorando (graças!). Agora para um macho, como será não poder chorar nunca? Tipo no enterro da mãe tudo bem, mas sem sair da pose que aí é demais? Deve ser enorme a quantidade de tristeza e raiva e angústia dentro dessas pessoas proibidas de aparentar sentimentos de dor emocional. Só para pontuar, não, não fiquei com pena, e não fiquemos. Não poder chorar tristinho está a anos luz de não poder viver sem medo de ser atacada e assassinada sempre que a rua está vazia. Enquanto eles estão fazendo birrinha na seção de brinquedos (buá, tenho piru pequeno), a gente está sendo arrastada por um desconhecido para o banheiro da loja. Mas é sempre bom saber que o sujeito macho não passa de um ser triste, completamente desconectado de si e do resto. São seres com o pior tipo de solidão, aquela em que se está sozinho em absoluto: não tem outra pessoa, não tem nem ele próprio.

Captei também – com muitas, várias e diversas ocorrências dentro da minha família e além – a obrigação imperante de olhar para qualquer mulher que passe em qualquer lugar, apontá-la para outro macho, rir abusivamente, sem deixar de transparecer escárnio, e depois fazer algum comentário que se não for de objetificação da mulher não é válido. Macho que é macho percorre todos os passos religiosamente, porque a assustadora punição para qualquer mínimo descuido é ser chamado de viado. Esse é o grande problema dele. Ser chamado de viado. Aí, para isso não acontecer, eles passam o dia elaborando, processando e cuspindo perversidade e desfaçatez pelo mundo afora. Mais fácil.

Quando penso empaticamente nisso, reconheço a pressão de estar sempre sendo testado. Mas reconheço também que o homem, em menor ou maior grau de macho, sendo mais ou menos legal, não entende que aquela olhadela mal disfarçada para nosso peito no meio de uma conversa, aquele comentariozinho bobo com um amigo de que não sei quem é gostosa, aquela interrupção de conversas alheias com um aí gata todo se achando maneiro – esses e muitos outros comportamentos – não passam do ritual de consagração da cultura do estupro. Para eles, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Poucos caras realizam que é errado ver a mulher como uma coisa ou uma propriedade, alguns até conseguem vislumbrar que nós somos pessoas. Mas a grande maioria pensa que isso é mimimi, que se ele não é estuprador não tem problema nenhum ele “mostrar interesse” por alguma mulher – ou corpo da mulher, falemos a verdade. Esse é um ótimo exemplo de como empatia não resulta em compaixão. Não é não. Se não entendeu, vai aprender no grito: nossos corpos são a nossa casa, não somos seus artigos de consumo.

No meio desses e de outros elementos do ser macho – que talvez nem conheçamos, mas dão base ao menosprezo e ao abuso de nossos corpos e de nossas mentes –, muita coisa já foi conquistada pela e paras as mulheres. Algumas de nós já podem aprender a ler e escrever, escolher com quem vão se casar e se vão se casar, decidir se querem trabalhar nisso ou aquilo. O algumas de nós não diminui as conquistas, ao contrário, muitos e maravilhosos caminhos já foram abertos. Agradeço (agradecemos, se vocês companheiras me permitem) infinitamente às mulheres que conseguiram, e vêm conseguindo, vitórias para as nossas vidas. Amor eterno a essas mulheres. O que essa realidade mostra é a tremenda dificuldade de derrubar o castelo de sangue e esperma, seus guardiões de merda parecem estar sempre o reforçando. Mas mesmo assim, eu vejo essa onda de Bolsonaro e Temer, por exemplo, como puro desespero, eles têm muito medo da gente. Só confirma que alguns alicerces andam meio bambos, que a luta está funcionando. E deve ainda ter uma pá de fraquezas que a gente não está explorando, um armazém de medos para descobrir e uma boa extensão de pseudofortalezas para desestruturar. Eu sei que não é do dia para a noite – quem dera – e que a tarefa é árdua, mas esse castelo a gente vai derrubar.

1426721_10202196928746352_1511296046_n

Texto de Ivna Feitosa em colaboração com o portal midiacoletiva.org
.

Comentários do Facebook

Comentários

Click to comment

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

To Top