Ditadura

É inaceitável que um agente da repressão da ditadura militar seja secretário da prefeitura da cidade do Rio de Janeiro

Via Tortura Nunca Mais.

O Grupo Tortura Nunca Mais / RJ (GTNM-RJ) vem a público manifestar sua total indignação e repúdio ao conceito de “Ordem Pública” do prefeito Marcelo Crivella – conceito este expresso na nomeação, mais do que simbólica, do atualmente Coronel da reserva da PM-RJ, Paulo César Amêndola de Souza.

Quem é Paulo César Amêndola

1. O Projeto Brasil Nunca Mais, coordenado pelo então cardeal de São Paulo Dom Paulo Evaristo Arns – é o resultado da microfilmagem de todos os processos que se encontram no Superior Tribunal Militar, em Brasília, abrangendo o período de 1964 a 1978, tratando-se, portanto de documentação oficial produzida pelo regime ditatorial.
O nome do Coronel Amêndola é citado várias vezes (ver páginas 113 e 238 do Tomo 11, volume 3) e, mais especificamente na folha 005 do Processo 1599 da Segunda Auditoria da Aeronáutica, com apelação no STM número 39.295, consta um documento da Secretaria de Segurança Pública do Estado da Guanabara no qual o então capitão Amêndola é identificado como “estando a serviço do Centro de Operações de Defesa Interna do I Exército” – o famigerado DOI-CODI, centro de torturas, assassinatos e desaparecimentos durante a ditadura militar.

2. Mas, mais do que está nos documentos oficiais, o próprio coronel Amêndola – em recente entrevista ao jornal O Globo (ver matéria do dia 21/12/2016) assume ter participado diretamente de operativos, inclusive fora do estado do Rio de Janeiro. Como o repórter descreve na abertura da matéria – Em agosto de 1971, o então guerrilheiro Cesar Benjamin, foi preso, aos 17 anos, numa praça de Salvador durante uma missão do Centro de Informações da Marinha (Cenimar). Integrante da organização MR-8, que lutava contra a ditadura, ele estaria levando uma mala de dinheiro para Carlos Lamarca quando foi capturado por militares. Entre seus captores estaria Paulo Cesar Amêndola, que, em 2011, falou ao GLOBO sobre a operação. Com riquezas de detalhes, ele afirmou que foi enviado à Bahia numa ação confidencial, e que só chegando lá descobriu quem era o alvo. A prisão teria ocorrido numa emboscada, e, na versão de Amêndola, coube a ele desarmar Benjamin, que tentou escapar do cerco.
Nesta mesma entrevista o próprio Amêndola afirma, literalmente: “Eles precisavam de gente com experiência em área urbana. E a missão que nos tinham dado era capturar umcidadão que ia passar em Salvador…” e continua em seguida: “Pegaram o Cesinha, eu fui por trás e tirei a (pistola) 45 dele. Cesinha começou a gritar “estão me assaltando, estão me assaltando!”. Mas eram três cercos, tudo à paisana — declarou o militar ao GLOBO.

3. Depois do fim da ditadura militar a carreira de Amêndola continua. O coronel se orgulha de ter sido o criador do BOPE (Batalhão de Operações Especiais da PM-RJ. Este batalhão, que tem como símbolo uma “caveira”, é por demais conhecido de todos os moradores das favelas e periferias de nossa cidade. Todas as mães, pais, parentes e amigos das vítimas do verdadeiro genocídio promovido contra jovens, pobres, em sua enorme maioria negros; sabem muito bem dos métodos operacionais deste batalhão. Sabem que para o povo pobre não existe “bala perdida” mas sim corpo achado.

4. Ainda consta do currículo de Amêndola a criação da Guarda Municipal que, contrariando os objetivos expressos na lei que a criou, dedica-se a reprimir, com extrema violência os trabalhadores desempregados que tentam buscar seu sustento como ambulantes e a controlar as populações pobres da cidade. Até agora com as chamadas “armas não letais” mas sabemos que já existem projetos para que passem a utilizar armas de fogo.

Portanto, nós do GTNM-RJ, Consideramos que colocar um membro do CODI – aparato de repressão da Ditadura Civil-Militar, criador de uma corporação que se destaca pela violência e desrespeitos aos direitos humanos, expressa com rara clareza uma compreensão do atual prefeito do que seria ordem pública: repressão e intimidação pela violência.

Rio de Janeiro, 23 de janeiro de 2017.

Pela Vida e Pela Paz,
Tortura Nunca Mais!
Grupo Tortura Nunca Mais/RJ

Charge usada como capa: Carlos Latuff.
Colaboração: Carlos Augusto Lima França.

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