Luta Contra o Racismo

Cidade de Deus se organiza e bota a cara contra o terror

No último dia 30 dezembro, véspera de Ano Novo, moradores da Cidade de Deus se organizaram e fizeram uma manifestação contra o terror que vivem cotidianamente, repudiando mais uma chacina no Rio de Janeiro. No dia 23 de dezembro de 2015, segundo o relato do feirante Marcos dos Santos, pai de uma das crianças assassinadas, um carro com vários homens entrou na favela pela rua Josafá, um local de comércio, atirando contra os moradores. Havia muitas pessoas pela rua na hora que os assassinos chegaram.

Duas crianças morreram e ainda há duas pessoas gravemente feridas, correndo risco de morte. Marcos Vinicius dos Santos, de apenas 11 anos, foi atingido por um tiro no peito e morreu na UPA (Unidade de Pronto Atendimento). A outra vítima fatal, Breno de Souza, mais uma criança, um jovem de 14 anos, foi executado à queima-roupa com vários tiros. Há marcas dos tiros no asfalto (* foto abaixo) e pelos muros da rua. Segundo uma testemunha, Breno ainda estava vivo, agonizando, quando seu assassino disse: “não vai ter socorro” e desferiu mais tiros à queima-roupa, executando-o.

Os outros dois baleados que sobreviveram, Juciara da Costa, 42 anos, e Joaquim Cândido da Silva Bisneto, outra criança, de 9 anos de idade, correm risco de morte. Estamos buscando mais informações.

A manifestação foi cercada de muita emoção, revolta e união. Essa unificação vem também da força de uma identidade local dos moradores com a Cidade de Deus, que ficou evidente em canções das raízes da comunidade. A grande maioria das quase 300 pessoas que estiveram presentes no protesto são moradores. E quando se fala em ato político na favela é de extrema importância a participação da população local que vive e sofre diretamente e diariamente com a repressão do Estado.

O ato saiu da rua Josafá, local que ocorreu a chacina, e caminhou por uma das principais vias de acesso à Cidade de Deus, a Estrada Marechal Salazar Mendes de Moraes. Com fortes mensagens em cartazes e gritos como “Chega de mortes!“, “Vem pra rua, vem!“, “Chega de matar nossos jovens, nossas crianças!“, “Chega de assassinatos na favela!“, “Queremos justiça!” e tantos outros, a marcha seguiu até a Praça da Cidade de Deus, onde permaneceu por um tempo com mais falas e denúncias sobre o caso e problemas sociais da favela.

Um dos momentos mais fortes foi quando uma criança, abraçada a outra, contou sobre a realidade que sofre todos os dias pelo simples fato de ser negra e pobre: “Isso que aconteceu com o Breno não dá para superar. As crianças não podem ficar na rua, porque todo mundo tá sofrendo […] Eles sai dando tiro, eles querem saí matando, é uma covardia […] Isso é horrível. A gente mora num lugar que tá todo mundo falando: ‘Ah é favelado! Ah você é isso, você é aquilo!’ […] Você vai num lugar os outros te critica, fala que você é um negro, fala que você é um porco […] não dá pra superar isso não! […]” (Assista o vídeo, abaixo)

As famílias das crianças assassinadas estiveram no ato. Inclusive parentes dos dois baleados ainda vivos. O pai da criança de 11 anos, Marcos dos Santos, agradeceu o enorme apoio que vem recebendo. Marcos Vinicius dos Santos, de apenas 11 anos é ex-aluno da Escola Municipal Dyla Sylvia de Sá, que abandonou para ajudar os pais na venda de peixe na feira, foi assassinado na barraca da família, enquanto trabalhava com o pai. Diferente do que a imprensa comercial tem veiculado, não houve tiroteio, mas sim execuções.

A tia de Breno Souza, o jovem de apenas 14 anos, que continua sendo veiculado pela “grande mídia” como um adolescente de 17 anos, estava muita emocionada e sequer conseguiu expressar sua indignação em palavras diante de tanta dor. A irmã fez questão de dizer que seu irmão tinha 14 anos e não tinha qualquer envolvimento com o tráfico, como divulgado pela imprensa.

Em verdade, essa é uma luta inglória nas favelas e periferias do Brasil: familiares precisam provar que seus filhos e filhas não são “traficantes”. Por que quando jovens de classe média e da classe alta, brancos, estão ligados ao tráfico não há pedidos eloquentes de execução por parte da sociedade? O velho jargão de “bandido bom é bandido morto”. Porque para parte da população é legítimo a execução de jovens negros que estejam (ou não) ligados ao tráfico. Que representa racismo e o enorme preconceito social pelo qual as áreas pobres passam – a eterna luta de classes. Não importa, se tem ou não alguma relação. Não se justifica um jovem de 14 anos ser executado. Isso é pena de morte, que, na prática, existe.

“Só não aprovam pena de morte no congresso
Porque é mais barato chacinas sem custas de processo
Pra quê criar papelada e assinatura?
Se é só deixar gambé descarregar na viela escura”

Eduardo, ‘A Fantástica Fábrica de Cadáver’, música ‘Sentença Capital’.

O ato #‎BotaCaraCDD‬:

Denúncia da irmã de Breno Souza:

Intervenção artística ‘EU NÃO SOU DA PAZ. PAZ É COISA DE RICO!’
Apresentação de Giovana Rocha, atriz da Cidade de Deus, no ato. O vídeo também está no Facebook.

Colaborou para a matéria: Carlos Augusto Lima França
Outra matéria sobre o caso: ‘Uma criança e um adolescente assassinados em chacina na Cidade de Deus

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