Brasil

“A ânsia de destruir é também a ânsia de criar”: Que ousemos construir o novo

Uma nova era ou um novo mundo não se constrói sobre alicerces deteriorados. As bases teóricas e práticas daquilo que convencionou-se chamar de “pensamento revolucionário” terão SIM de serem revistas e, por que não, destituídas de sua suposta legitimidade caso elas não se encaixem mais com as linguagens de nossos tempos.

Inclusive, apostamos nessa ocasião: o mundo que desejamos não sustenta mais as visões políticas dominantes da modernidade historicamente concebida. E, talvez por sentirmos isso, há muito tempo estamos percebendo o quanto vivemos na borda, no limite invisível de duas eras. Por isso mesmo, não acreditamos apenas em construções progressivas de longo prazo como viés de mudança. Não acreditamos nisso simplesmente porque não pensamos que a revolução seja amanhã. A revolução que podemos fazer começa hoje, no aqui no agora. Começa comigo mesmo, com minha autocrítica às ações que desempenhamos na sociedade, no que convencionamos chamar de família, no trato dos amigos e de quem nem sequer conhecemos. Essa tal revolução pode começar, inclusive, repensando o caráter das convenções.

Uma dessas convenções é exatamente a leitura do espectro político “esquerda-direita”. Qualquer um com um mínimo de leitura sobre a construção desse espectro e sua origem no seio da Revolução Francesa, vai perceber sua inaplicabilidade à realidade brasileira! O Brasil ainda não experimentou uma primavera de povos historicamente massacrados pelos colonizadores. Todas as revoltas que aqui houveram, cedo ou tarde, foram silenciadas após extermínios sem fim! Até hoje, as gerações descendentes desses povos sofrem as consequências de um país edificado sobre sangue indígena e sangue negro. Mal tivemos chance de ter nosso Maio de 68, ou algum movimento autonomista contra reformas liberais. A social-democracia, que protagonizou o silenciamento das pautas revolucionárias mundo afora, aqui é tudo, menos social ou democrata!

São por esses e tantos motivos que NÃO reivindicamos para nossa prática política os signos de uma era que deixou de fora os povos que foram colonizados e tiveram suas culturas e mentalidades estraçalhadas pela sede de poder! Não vemos nas bandas de cá, por maior que seja a abrangência de algum projeto de educação visado nessa direção, a construção REAL das identidades “direita” ou “esquerda”. O que vemos, na verdade, é um oportunismo sem fim, respaldado nas emoções humanas e no nosso desejo íntimo de nos sentirmos poderosos em algum momento.

Fortalecer ou unificar uma tal esquerda que só existe no imaginário do século XIX/XX, no momento em que até mesmo sociedades econômica e socialmente mais desenvolvidas começam a questionar tais valores, é querer tapar o Sol com uma peneira. É querer disfarçar a origem histórica das desigualdades no Brasil e ignorar que as soluções passam, necessariamente, por uma revolta generalizada contra as estruturas da democracia representativa e, por que não, da república.

Nesse sentido, mais uma vez citamos Chomsky: não nego um viés socialista e libertário, pelo contrário; reivindico a sociedade organizada de forma livre e solidária entre todos os trabalhadores e trabalhadoras, numa estrutura federalista e autogestionária. Mas penso que isso deve respeitar aquilo que tem sido objeto de estudo das filosofias ao longo dos tempos: a natureza humana e sua capacidade criativa.
Se nós esquecermos que somos uma espécie que tende à criação, ao apoio mútuo e à liberdade, cairemos nos erros que ajudaram o fascismo em sua tomada do poder em vários locais no pós-guerra do início do século passado. Penso, também, que esse respeito PRECISA passar no reconhecimento dos genocídios que se perpetuam no Brasil desde sua colonização até os dias atuais.

Até porquê, lutar pela liberdade do outro implica em reconhecer sua autonomia organizativa, a responsabilidade com o outro de ter a liberdade, onde essa minha liberdade não limite a do próximo e sim amplifique, pois convenhamos que em nada adianta carregarmos a bandeira da liberdade se nossas atitudes diárias do cotidiano ou atitudes na luta por mudanças privem o outro de exercer também a sua liberdade. Reconhecer também, por exemplo, a legitimidade das estruturas dos povos originários e das populações negras que foram escravizadas e trazidas para cá. Do contrário, mais uma vez, seremos repetecos das burocracias vermelhas.

Reconhecer e respeitar autonomias, entender a necessidade da revolta que urge em nossa sociedade, alimentar a chama da libertação contra as estruturas dos poderes dominantes no Brasil e compreender que nós todos, enquanto minúsculos seres pensantes, podemos SIM viver em harmonia criativa e pautada na construção permanente de uma revolução: esses são os princípios que acreditamos, que são os norteadores do mundo que almejamos e que pavimentam aquilo que chamamos de anarquismo (ou como alguns andam falando desde a década de 90, pós-anarquismo).

Sempre nos perguntamos o que tio Bakunin acharia da nossa “devoção” aos escritos anarquistas do século XIX e na nossa resistência de não aceitar as mudanças, mesmo as mudanças dos escritos de pessoas como ele. Muito sabiamente ele diz que a ânsia de destruir também é a ânsia de criar e não temos a menor duvida que hoje, possivelmente, ele vendo a imensa pluralidade dos povos, teorias e formas, muito do que escreveu, ele rasgaria e escreveria de novo, escreveria o novo, melhoraria e adaptaria o pensamento anarquista na busca incessante por liberdade.

Liberdade para Rafael Braga Vieira
R.I.A

“Que as chamas da insurreição iluminem o caminho para a liberdade”

Comentários do Facebook

Comentários

Click to comment

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

To Top