Comportamento

Amor livre e amor neoliberal

Texto de Danilo Castelli, traduzido por Rodrigo Duarte Baptista.

A crise do casal tradicional é um fato. Porém, tenho a intuição de que não é, lamentavelmente, uma crise revolucionária proveniente do desejo do povo de viver mais livre, mas é, senão, uma consequência da atomização social e do individualismo hedonista, promovidos pelo próprio capitalismo neoliberal.

Estou a favor de que se critique a monogamia [1] e que se debata os relacionamentos abertos [2], o poliamor, etc., entretanto, uma coisa é fazê-lo a partir da perspectiva do amor livre e outra é fazê-lo a partir da perspectiva do amor neoliberal.

Desde sua origem, o amor livre surge vinculado ao anarquismo e ao socialismo como uma forma a mais de resistir a este sistema social alienante (que obriga a nos relacionarmos de maneira possessiva e dependente) e também uma forma de prefigurar as relações afetivas na sociedade pós-capitalista, uma vez extinguidas as condições econômicas e patriarcais (ver Emma Goldman, Alexandra Kollontai) [3]. O amor livre, que bebeu dessa tradição, tem como fim gerar ralações sexo-afetivas mais saudáveis e livres (livres para nos realizarmos e livres de dominação e exploração). Como se diz por aí, é mais fácil que nos oprimam se nos agruparmos de 2 em 2 do que de 20 em 20. Promover relações afetivas, para além dos casais monogâmicos e da família nuclear, multiplica os sistemas de apoio para as pessoas e constrói comunidade.

O amor neoliberal, por outro lado, atua em nome do prazer e da ‘’liberdade’’ do indivíduo de fazer o que deseja. Isto leva a dissolver ainda mais os sistemas de apoio, criados por vínculos afetivos (já que nada pode ser mais importante que o desejo do indivíduo), e nos deixa mais vulneráveis ante os sistemas de dominação. Da perspectiva do amor neoliberal, não se critica a monogamia como ordem social que complementa o capitalismo e o patriarcado: mas a critica como um obstáculo ao desejo do indivíduo de fazer o que se quer quando se quer. (Por isso, da perspectiva do amor neoliberal, enfurecem-se quando falamos sobre capitalismo e patriarcado. Até lançam acusações debochadas de que estamos ‘’metendo a política no meio’’.)

Alguns homens se beneficiam de uma ideia de amor livre, sob um ponto de vista egoísta, de que vão poder conservar o privilégio, que já possuem agora, de usar pessoas para satisfazerem seus desejos sem se responsabilizarem afetivamente [4]. A esse privilégio se agregaria a retirada do estigma da infidelidade. Claro que, em seu mundo perfeito, seriam eles e seu harém, pois seria incômodo ao ego de um macho que a mulher tenha a mesma liberdade sexual. Sobretudo, quando sabem (ainda que neguem), que a capacidade sexual da mulher é muito maior do que a do homem [5].

A reação conservadora de algumas mulheres à crítica da monogamia tem bastante sensatez: argumentam que os privilégios com relação à promiscuidade e responsabilidade pelos vínculos que favorecem o homem seriam, ainda piores, sob a norma monogâmica. ‘’Ter’’ um homem ou ser ‘’de’’ um homem é uma estratégia de sobrevivência para muitas mulheres na sociedade onde os homens, todavia, concentram o poder e a riqueza. Resulta que agora elas têm de compartilhar esse homem com outras mulheres, obviamente, resultará em uma situação mais precária que antes (economicamente, emocionalmente, socialmente). Portanto, interpretam que com a abolição da monogamia sairão perdendo, e razão não lhes falta quando a crítica à monogamia que escutam vem a partir de uma perspectiva neoliberal e centrada no prazer masculino heterossexual ou no prazer ‘’individual’’ no plano abstrato.

Por isso, o amor livre necessita caminhar de mãos dadas com o feminismo e com a emancipação feminina (econômica, emocional, sexual…). Com machismo não há amor livre. Com homofobia, bifobia e transfobia tampouco. Vender uma ideia de amor livre pondo, em primeiro plano, o desejo do homem cis heterossexual ou despolitizando a questão falando de ‘’indivíduos’’ em abstrato, não tem nada de revolucionário: muito pelo contrário.

Um dos temas que logo encontram as pessoas que começam a ler e a dialogar sobre o amor livre é o tema dos ciúmes. Do ponto de vista do amor neoliberal, diz-se que os ciúmes vêm das inseguranças próprias, então é problema nosso resolver essas inseguranças e autogerir nossas emoções para sermos ‘’evoluídos’’ e não arruinarmos a liberdade. A partir dessa posição, aconselha-se por meio da autoajuda [6], onde, é claro, não há um olhar crítico da produção social das subjetividades (e das angústias), de como se rotulam a certos corpos como não-desejáveis (ou desejáveis somente como fetiche) e de se os ciúmes concretos que a pessoa sente vem de situações de descuido e abandono que são reais. Inclusive, a partir das perspectivas mais sofisticadas [7] onde se fala de ‘’desconstruir os ciúmes, o medo e a insegurança’’, sempre se fala de uma desconstrução individual.

Atualmente, perdemos muita energia nas ‘’guerras românticas’’ [8] e em competições entre nós por afeto/sexo. Com o amor neoliberal seria ainda pior, já que a liberdade que interessa a ele é somente a individual, não a coletiva, e desligada da responsabilidade. Ademais, o amor neoliberal promove a mercantilização das relações afetivas, seja através da lógica de usar pessoas e descartá-las, seja através da lógica do contrato (fazendo da necessidade uma virtude).

Por isso o amor livre necessita de ir pela via da crítica ao capitalismo e ao mundo criado pela propriedade privada e o mercado. Há de ser considerar as condições sociais para o amor livre [9]. Não há amor livre sem liberdade, e não somos libres se não temos o que comer ou se, para comermos, temos de empenhar a maior parte do nosso dia durante toda nossa vida em ganhar dinheiro, ou dependendo de alguém que o faça. Não há amor livre se nos relacionamos com as coisas como se fossem pessoas e como as pessoas como se fossem coisas. Não há amor livre se nos condicionamos a uma lógica de escassez de afeto/sexo, obrigando-nos a competir com outros, obrigando-nos a ganhar em detrimento de outros que perdem. Não há amor livre sem tempo livre. Que espaço para o amor livre tem as mães que criam seus filhos sozinhas, sem um sistema de apoio e cuidado para a criança? Não há amor livre se temos de possuir o outro (ou os outros) para garantirmos o afeto de que necessitamos. Não há amor livre sem responsabilidade afetiva [10].

Tudo isso significa que é melhor deixarmos tudo como está e renunciarmos a criticar a monogamia e a buscar modelos alternativos de se relacionar, livre-igualitários? Jamais. Porém, cuidado para não confundir o amor neoliberal com o amor livre. O amor livre não é livre dos outros, mas livre com os outros [11].

Autor: Danilo Castelli
(Para ter acesso ao texto original, em Espanhol: https://medium.com/@danilocastelli/amor-libre-y-amor-neoliberal-61173e12ba3b)

[1] Acesse o texto do autor: https://medium.com/@danilocastelli/los-sufrimientos-evitables-de-la-monogamia-15572912f15f
[2] Acesse o texto do autor: https://medium.com/@danilocastelli/de-la-monogamia-a-las-relaciones-libres-8ef693953ca9
[3] Para definições mais profundas do conceito de amor em Emma Goldman, acesse: http://www.nuevatribuna.es/articulo/cultura—ocio/amor-libre-anarquista-emma-goldman/20140514144240103493.html
Para compreender a inserção, feita por Kollontai, do amor nas lutas de classes: https://www.marxists.org/espanol/kollontai/1911/001.htm
[4] ‘’não existem relações livres sem responsabilidade afetiva’’: http://amorlibre.org/no-existen-relaciones-libres-sin-responsabilidad-afectiva
[5] Sobre a discussão sobre a energia sexual das mulheres: ‘’o medo masculino da potência sexual feminina’’, de Coral Herrera Gómez: http://www.mujerpalabra.net/pensamiento/coralherreragomez/miedomasculino.htm
[6] ‘’3 Conselhos fáceis para tratar os ciúmes’’: https://amorlibre.org/3-consejos-para-tratar-los-celos
[7] ‘’Lidando com os ciúmes na prática’’ https://amorlibre.org/manejo-de-los-celos-en-las-practicas
[8] ‘’Menos guerras românticas e mais amor’’ haikita.blogspot.com.ar/2015/02/menos-guerras-romanticas-y-mas-amor-por.html
[9] Acesse o texto do autor: ‘’Condições sociais para o amor livre’’ https://medium.com/@danilocastelli/condiciones-sociales-para-el-amor-libre-e5c5f140b6dc
[10] ‘’Não há amor livre sem responsabilidade afetiva’’ amorlibre.org/no-existen-relaciones-libres-sin-responsabilidad-afectiva
[11] ‘’Que viva o amor companheiro e o companheirismo amoroso’’ www.pikaramagazine.com/2017/02/que-viva-el-amor-companero-y-el-companerismo-amoroso/

Rodrigo Duarte Baptista cursou Filosofia e está se graduando em Direito também na Universidade Federal do Rio de Janeiro, desde 2016 atua fotógrafo e jornalista independente.

Fotografia de capa de um trecho da performance ‘’Rest Energy’’, da artista Marina Abramovic.

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