Violência Policial

Contra-resposta ao Jornal “O Dia”

Todos os dias moradores de favelas enfrentam, além da violência do estado na forma da polícia, estereótipos negativos reproduzidos pela mídia convencional.

Por Buba Aguiar

Na manhã da última segunda-feira (13/03), na Favela de Acari, ocorreu uma operação policial, do 41º BPM, munida de já conhecida violência, afinal o tal batalhão é o responsável por altíssimos números de execuções em todo estado do Rio de Janeiro desde que surgiu, derivado do 9º BPM.

Nesta operação um morador, Manuel Lisandro, de 46 anos, foi alvejado e morto.

Nessas horas, dentre as inúmeras coisas que se passa na nossa mente enquanto povo esquecido, pensamos em dar visibilidade pra esse cotidiano sangrento que o estado nos impõe. Sendo assim, todos gritam por mídia, seja mídia independente e popular ou até mesmo a corporativa.

Porém percebemos um aumento na distância entre o povo e a mídia corporativa, não apenas distância mas também certa desconfiança do povo para com a mesma. Podemos dizer que isso ocorre por conta de, muitas vezes, essa mídia contribuir na perpetuação do senso comum do modo como a sociedade enxerga o povo das favelas.

Um exemplo disso é a matéria do Jornal O Dia sobre a execução de Manuel, na Favela de Acari. O jornalista, Luarlindo Ernesto, não apurou com profundidade o que de fato ocorreu, deixando de lado graves denúncias dos moradores em relação a postura dos policias na situação. Na matéria do O Dia diz “em nota, a corporação afirmou que os policiais do 41º BPM (Irajá) foram até a favela após receberem a denúncia de que havia um corpo caído no chão.”, mas o jornal parece não ter tido o trabalho de ouvir as tais testemunhas que consta na matéria, pois era de conhecimento de todas e todos na favela que os policiais estavam na localidade desde muito cedo e estavam próximos ao local da execução, ou seja, não apareceram no local por conta de denúncia. Assim já derrubamos a versão da corporação e mostramos em como o jornal não confrontou os relatos fazendo essa análise.

Também é dito na matéria que “A PM informou que a área foi isolada e que a Delegacia de Homicídios da Capital (DH), acionada.”, mas não é dito na matéria que a DH só foi acionada horas depois. Através de fontes seguras, soubemos que os policiais tinham a intenção de apresentar o ocorrido como auto de resistência, mas como essa versão não foi sustentada pelos mesmo, apresentaram como corpo localizado após confronto. Não encontramos na matéria do mesmo jornal que os primeiros a fazerem uma espécie de isolamento improvisado do corpo de Manuel foram os próprios moradores que mesmo indignados com a situação se atentaram para a importância de preservar o local. Isso tudo sob constantes ameaças dos policiais de atirar com suas pistolas e até mesmo de retirarem o corpo do local, a bordo do caveirão, contrariando o procedimento correto de esperar perícia. Dentre essas ameaças não informavam se já haviam chamado a DH, aumentando a dor da família de Manuel, numa espécie de tortura psicológica, pois o corpo permaneceu das 11 da manhã as 15 horas no chão, porque os policiais não queriam chamar a perícia.

Além do Jornal O Dia, a Rede Globo também noticiou o ocorrido na manhã de hoje (14/03), porém da mesma forma que o “O Dia” deu mais credibilidade a versão da polícia, dizendo que não houve tiroteio. E assim, nós, moradoras e moradores do local, ficamos nos perguntando se os sons de tiros que ouvimos possa ter sido alucinação nossa.
Neste mesmo dia, desde cedo o coletivo local, o Coletivo Fala Akari, publicou em sua página no facebook sobre a presença da polícia no local e os sons de tiros, mas o Jornal O Dia noticiou, mais uma vez, apenas a versão da polícia que dizia não ter ocorrido confronto naqueles locais.

Assim, podemos concluir que pra mídia corporativa ainda é muito difícil dar visibilidade, de forma verdadeira e sem abafar, aos relatos de moradores de favelas. E pra além disso, mostrar pra nós mesmos, moradoras e moradores de favelas, que precisamos urgentemente nos apropriar dos meios de comunicação para mostrar nosso cotidiano, que nem sempre é triste, mas que é sempre permeado de luta e força.

Isso também faz parte do nosso processo de autonomia.

Buba Aguiar é moradora de Acari e defensora de direitos humanos.

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