Luta Contra o Racismo

“Se um indígena cortasse a garganta de uma criança branca, o Brasil viria abaixo”

Palavras da mãe de Vítor Kaingang, bebê indígena degolado em SC

Um protesto contra um crime de ódio racial reuniu centenas de pessoas no dia 6 de janeiro, uma quarta-feira, em Imbituba, Sul de Santa Catarina. Foi lá que no último dia 30 o menino Vitor Pinto, de apenas dois anos de idade, pertencente ao povo Kaingang, foi degolado por um desconhecido enquanto estava no colo de sua mãe. A criança estava sendo amamentada, quando um estranho se aproximou e, após acariciá-la, desferiu um golpe no seu pescoço com uma pequena lâmina. Vitor morreu na hora. Enquanto a mãe gritava desesperada por socorro, o assassino fugiu em velocidade, desaparecendo logo em seguida. A cena foi registrada por uma câmera da rodoviária local:

“Se um indígena cortasse a garganta de uma criança branca o Brasil viria abaixo. Quero a mesma indignação pela morte do meu filho”, afirmou a mãe de Vitor, Sônia da Silva, de 27 anos, durante a manifestação. Além dos Kaingangues, o ato contou também com a presença de indígenas Guarani Mbya. Muitos usavam lenços vermelhos na região do pescoço, simbolizando o corte sofrido pelo menino. No local onde Vitor foi morto, os manifestantes escreveram os dizeres “Vítor Kaingang, você vive em nós”.

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Matheus de Ávila Silveira, 23

DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS
O suspeito preso pelo assassinato é Matheus de Ávila Silveira, um homem de 23 anos com passagens por violência doméstica. Ele foi detido dois dias depois do assassinato, sendo encaminhado para o presídio de Tubarão (SC), após a polícia ter liberado um primeiro indiciado, um ex-presidiário que não foi reconhecido por nenhuma das testemunhas. Segundo os policiais, agora existiriam claros indícios da autoria do crime. Nas poucas mídias conservadoras que estão dando algum destaque ao ocorrido, já podemos ler que é alguém desempregado e que atravessa problemas psicológicos. (O tipo de ponderação que você dificilmente escutaria caso se tratasse da morte de um médico pelas mãos de um adolescente negro, por exemplo). Embora se trate de um maior de idade, em um primeiro momento, só foram divulgadas as suas iniciais. “Para evitar linchamentos”.

Quando foram os Kaingang aqueles a serem acusados pelo Estado a atitude da imprensa e das autoridades sulistas foi bastante diferente. Em maio de 2014, na cidade gaúcha de Faxinalzinho, cinco lideranças da etnia foram presas pela polícia federal, por uma suposta participação na morte de Anderson e Alcemar Souza, dois irmãos caminhoneiros um mês antes. A ”operação” foi realizada bem no momento em que os indígenas se reuniam com representantes dos governos federal e estadual para discutir a demarcação de suas terras, uma clara forma de desmoralizar suas reivindicações. Animada pelas rádios locais, uma carreata seguiu com os prisioneiros, levando para as margens das rodovias e calçadas das cidades por onde passaram os aplausos pela vitória sobre os “índios criminosos”. Nas palavras do delegado de Passo Fundo, Mário Luís Vieira, a prisão teria sido um ”presente de dias mães’’ para a mãe dos irmãos mortos (segundo testemunhas, após terem feito uma criança de refém, em um conflito ocorrido durante um protesto dos Kaingangues).

A farsa, no entanto, não demorou a começar a ruir. Após 45 dias, os indígenas foram liberados, por ordem do STJ, em função da total ausência de provas consistentes. Ao invés de focar em questões básicas, como de quem eram as armas utilizadas e os motivos que levaram ao conflito, o inquérito partia da premissa inicial de que “os índios se reúnem em bando ou quadrilha para cometer crime”, em um processo racista de criminalização, bastante semelhante ao enfrentado pelo povo Mapuche no Chile. Em um dado momento do processo judicial, enquanto tentava  justificar a maneira aleatória como se deram as prisões, o delegado chegou a fazer a estapafúrdia declaração de que poderia ter se enganado na identificação dos acusados, porque os índios seriam todos ”muito parecidos”.

UM CRIME DE ÓDIO
Informações colhidas na delegacia por um advogado que acompanhou a família Kaingang dão conta de que o cruel assassinato do bebê Vítor pode estar relacionado a ações de organização neonazistas ou de outras correntes segregacionistas, difusores de ódio e protagonistas de violência contra índios, negros, pobres, homossexuais e mulheres.

Já a polícia insiste em negar as conotações raciais do caso e veicula agora a versão de que Mateus teria confessado que o crime teria se dado por “influência de uma religião’’, negando ter qualquer coisa contra indígenas especificamente. Se for verdade, cabe perguntar que importância teria a opinião de uma pessoa capaz de cometer um ato tão covardemente racista acerca de se ela própria é racista ou não. Porque se aproveitar da vulnerabilidade de um grupo étnico marginalizado por séculos de opressão para matar gratuitamente uma de suas crianças é sim uma atitude profundamente racista, não importando sob que pretexto se tenha feito isso. E racistas dificilmente conseguem enxergar a si mesmos como aquilo que realmente são.

Qualquer tenha sido a  sua ”motivação”, o fato é que o assassinato não deixa de guardar uma clara relação com o clima de intolerância contra os povos originários imperante no Brasil. Intolerância que é especialmente acentuada no sul do país, região que tem se notabilizado pelas manifestações públicas desavergonhadamente fascistas de alguns dos seus parlamentares. Como essa, do deputado federal Luiz Carlos Heinze, presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária e fundador da associação de arrozeiros de São Borja (RS):

Mas não são os integrantes da famigerada bancada ruralista os únicos políticos a terem as mãos sujas pelo sangue do pequeno Vitor e das centenas de índios assassinados anualmente no país. Também o governo federal tem uma grande parcela de culpa no acirramento das tensões entre indígenas e não indígenas no Brasil, que propiciam crimes bárbaros como esse. Seja por omissão, ao se recusar a levar adiante os processos demarcatórios de terras indígenas para não contrariar os interesses do agronegócio e do latifúndio, seja por ação, quando oprime diretamente os povos originários, através do seu aparato repressor.

Nestes últimos dias pelo menos cinco indígenas foram mortos ao longo do território brasileiro, em estados como Maranhão, Paraná, Tocantins e Santa Catarina.

Texto: Ricardo Pitta | Comunicador e colaborador da MIC – Mídia Independente Coletiva

 

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